Primeiro é um som que faz um outro som


Primeiro é um som que faz um
outro som, no concavo nocturno
das cousas. Depois é um uivo
vago, acompanhado pelo oscillar
rasco das tabuletas da rua.
Depois, ainda, ha um alto
de subito na voz urrada do espaço,
e tudo estremece, não oscilla,
e ha silencio no medo d'isto tudo
como um medo surdo que vê outro
medo mudo passar.

Depois não ha mais nada senão
o vento — só o vento, e reparo com somno
que as portas
estremecem presas e as janellas
dão som de vidro
que resiste.

Não durmo. Entresou.
Tenho vestigios na consciencia.
Pesa em mim o somno sem
que a inconsciencia pese...
Não sei. O vento... Accordo
e redurmo, e ainda não
dormi. Ha uma
paysagem de som alto e torvo
para além de que me desconheço.
Goso, recatado, a possibilidade
de dormir. Com effeito durmo,
mas não sei se durmo. Ha sempre no que
julgo que é o som um som de fim de tudo,
o vento no escuro, e, se escuto ainda, o som commigo
dos pulmões e do
coração.


Identificação: bn-acpc-e-e3-1-1-89_0133_66_t24-C-R0150
Heterónimo: Não atribuído
Formato: Folha (14.0cm X 21.6cm)
Material: Papel
Colunas: 1
LdoD Mark: Sem marca LdoD
Manuscrito (pencil) : Testemunho manuscrito a lápis.
Data: 1929 (low)
Nota: , Texto escrito no recto de meia folha. O verso contém contas datilografadas.
Fac-símiles: BNP/E3, 1-66r.1