Edição do Arquivo LdoD - Usa (BNP/E3, 2-60r)

A organização do livro


L. do D.
        (nota)

A organização do livro deve basear-se numa escolha, rigida
quanto possivel, dos trechos variadamente existentes, adaptando,
porém, os mais antigos, que falhem à psychologia de B. S., tal
como agora surge, a essa vera psychologia. Àparte isso, ha que
fazer uma revisão geral do proprio estylo, sem que elle perca,
na expressão intima, o devaneio e o desconnexo logico que o cha-
racterizam.

Ha que estudar o caso de se se devem inserir trechos grandes,
classificaveis sob titulos grandiosos, como a Marcha Funebre do
Rei Luiz Segundo da Baviera, ou a Symphonia de uma Noite Inquieta.
Ha a hypothese de deixar como está o
trecho da Marcha Funebre, e ha a hypothese de a transferir para
outro livro, em que ficassem os Grandes Trechos juntos.

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Somos morte. Isto, que consideramos vida, é o somno da vida
real, a morte do que verdadeiramente somos. Os mortos nascem,
não morrem. Estão trocados, para nós, os mundos. Quando julgamos
que vivemos, estamos mortos; vamos viver quando estamos moribun-
dos.

Aquella relação que ha entre o somno e a vida é a mesma que
ha entre o que chamamos vida e o que chamamos morte. Estamos
dormindo, e esta vida é um sonho, não num sentido metaphorico ou
poetico, mas num sentido verdadeiro.

Tudo aquillo que em nossas actividades consideramos superior,
tudo isso participa da morte, tudo isso é morte. Que é o ideal
senão a confissão de que a vida não serve? Que é a arte senão a
negação da vida? Uma estatua é um corpo morto, talhado para fixar a morte, em materia
de in-
corrup-
ção.
O mesmo prazer, que tanto parece uma immersão na vida, é antes
uma immersão em nós mesmos, uma destruição das relações entre nós
e a vida, uma sombra agitada da morte.

O proprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais
na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos
nella.

Povoamos sonhos, somos sombras errando atravez de flores-
tas impossiveis, em que as arvores são casas, costumes, idéas,
ideaes e philosophias.

Nunca encontrar Deus, nunca saber, sequer,
se Deus existe! Passar de mundo para
mundo, de incarnação para incarnação,
sempre na illusão que acarinha, sempre
no erro que affaga.

A verdade nunca, a paragem
nunca! A união com Deus
nunca! Nunca inteiramente em
paz, mas sempre um pouco d'ella,
sempre o desejo
d'ella!