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Não sei que vaga caricia


L. do D.

23-4-1930

Não sei que vaga caricia, tanto mais branda quanto não é caricia, a brisa incerta da tarde me traz à fronte e à comprehensão. Sei só que o tedio que soffro se me ajusta melhor, um momento, como uma veste que deixe de roçar numa chaga.

Pobre da sensibilidade que depende de um pequeno movimento do ar para o conseguimento, ainda que episodico, da sua tranquillidade! Mas assim é toda sensibilidade humana, nem creio que pese mais na balança dos seres o dinheiro subitamente ganho, ou o sorriso subitamente recebido, que são para outros o que para mim foi, neste momento, a passagem breve de uma brisa sem continuação.

Posso pensar em dormir. Posso sonhar de sonhar. Vejo mais claro a objectividade de tudo. Uso com mais conforto o sentimento externo da vida. E tudo isto, effectivamente, porque, ao chegar quasi à esquina, um virar no ar da brisa me alegra a superficie da pelle.

Tudo quanto amamos ou perdemos — coisas, seres, significações — nos roça a pelle e assim nos chega à alma, e o episodio não é, em Deus, mais que a brisa que me não trouxe nada salvo o allivio supposto, o momento propicio e o poder perder tudo esplendidamente.