Nenhuma época transmite a outra


Nenhuma época transmite a outra a sua sensibilidade; transmite-lhe, tão-somente, a inteligência que teve dessa sensibilidade. Pela emoção somos nós, pela inteligência alheios. A inteligência dispersa-nos; porém é pelo que nos dispersa que nós sobrevivemos, porque é por o que não é nós que viveremos fora de nós.

Um deus, no sentido pagão, não é mais que a inteligência que um ente tem de si mesmo pois essa inteligência que tem de si mesmo é a forma ideal ou estranha que ele tem. Formando de nós um conceito intelectual, formamos um deus de nós mesmos.

Viver é pertencer a outrem. Morrer é pertencer a outrem. Viver e morrer são a mesma coisa. Mas viver é pertencer a outrem de fora, e morrer é pertencer a outrem de dentro. As duas coisas assemelham-se, mas a vida é o lado de fora da morte. Por isso a vida é vida e a morte morte; pois o lado de fora é sempre mais verdadeiro que o lado de dentro — tanto que é o lado de fora que se vê, e o lado de dentro o que não há.

O seguimento de uma coisa, por exemplo, de um propósito, é paralelo a ele. Na vida, nada segue a não ser ao lado. Não há seguimento que não seja um simples acompanhamento. Coexistir quer dizer existir ao lado. Falar é coexistir consigo mesmo.

O homem que galgou o muro, tinha um muro que galgar.

Fingir é descobrir-se.

/Deitar-se é levantar-se de não ter ido para a cama/.

Ter razão é não saber quais são as emoções que se têm.

O homem que descobriu a liberdade voltou para casa e fechou-se na cama.

Ser é abdicar.

Toda a emoção verdadeira é mentira na inteligência, pois se não dá nela. Toda a emoção verdadeira tem, portanto, uma expressão falsa. Exprimir-se é dizer o que não se sente.

Os cavalos da cavalaria é que formam a cavalaria. Sem as montadas os cavaleiros seriam peões. O lugar forma a localidade. Estar é ser.

Uma porta tem dois lados — aquele para onde se abre, e aquele de onde se abre. O espaço aberto da porta é igual para ambos os lados. Para um lado, incomoda, para o outro só deixa ver. Do lado que incomoda é que se pode esconder alguém.

Fingir é conhecer-se.


Título: Nenhuma época transmite a outra
Heterónimo: Vicente Guedes
Número: 87
Página: 104 - 106
Nota: [15(3)-80, dact.];
Nota: Apenas Teresa Sobral Cunha inclui este texto no corpus do "Livro do Desassossego".
Testemunhos

Edições dos Peritos


Edições Virtuais