PRAGMATISMO | Agir é intervir


Agir é intervir. Um braço que se estende ocupa espaço e forma-se, assim, uma escultura metafísica. Nunca pude deixar de dar a este facto insignificante uma importância alada sobre o quotidiano.

Nunca vi em mim senão uma romaria de inconsciências para o outono das minhas intenções. As longas horas que tenho passado à beira do meu correr têm-me cavado rios sobre a existência.

Com os meus passos treme a luz das estrelas. Um gesto da minha mão, que me oculta a lua um momento, mostra, com este meu assombro, quanto pode realmente significar. Destes pensamentos, tornados domésticos e quotidianos ao meu escrúpulo, adveio ao meu instinto que ele naufragasse no porto.

Pareceu-me sempre que ser era ousar; que querer era aventurar-se. Inércia soube-me a santidade, e não-querer a ter bons costumes. Construí assim uma moral média do pensamento, um cuidado da comodidade e da decência através do respeito do mistério. A exagerada consciência, que sempre tive, dos meus momentos, doeu-me sempre a mistério e a divino. Nunca me compreendi, sobretudo quando me surpreendi a viver as inconsciências dos meus instintos e a vulgar correcção dos meus reflexos nervosos.


Título: PRAGMATISMO | Agir é intervir
Heterónimo: Vicente Guedes
Número: 95
Página: 108 - 109
Nota: [138A-21, ms.];
Nota: Teresa Sobral Cunha integra este texto na sequência 'PRAGMATISMO' (2008: 108-109).


Edições Virtuais