Os americanos tratam tudo a brincar


Os americanos tratam tudo a brincar, porque tratam tudo a sério. Assim um almirante americano, querendo, num livro (...)

Quem raciocina com intensidade e violência tem que expressar com descongestionamento. Rir não é não ter razão. Não há relação entre a solenidade e a verdade. Deixemos a seriedade aos que têm ideais em que perdem tempo e jeito. Pensemos, e acabemos de pensar com uma gargalhada.

A dor do mundo é grande? Talvez seja. Como não há metro para ela, não sabemos. Mas, ainda que seja grande, curar-se-á aumentando-a com a nossa?

Pensa a sério mas não com sério. Pensa profundamente, mas não às escuras. Quer fortemente, mas não com as sobrancelhas.

Sinceros? Quantos gramas de verdade é que a nossa sinceridade pesa?

Quem pensa, ri; só não ri quem só faz cara que pensa.

Ri, bruto!


Título: Os americanos tratam tudo a brincar
Heterónimo: Vicente Guedes
Número: 121
Página: 123 - 124
Nota: [138A-26, dact.];
Nota: Apenas Teresa Sobral Cunha inclui este texto no corpus do "Livro do Desassossego". Texto retirado do corpus na edição de 2013.
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