INTERVALO (O homem que na Avenida fugia das folhas)


INTERVALO

O homem que na Avenida fugia das folhas e dos papéis que o vento arrastava atrás dele.

Na matemática (...) do problema do momento, inquietantemente, subira ao problema metafisicamente considerado.

Descobrira que cada consciência era a origem de todo o movimento que fazia.

O vento não arrasta a folha. Desperta nela a capacidade de se mover. Nos seres inferiores o impulso exterior é aparente.

A folha, por exemplo, só pode mover-se ao sabor dos impulsos exteriores; mas isso não quer dizer que não se mova de per si, que não tenha alma para se mover.

As coisas talham movimento aos meus olhos apavorados. O movimento é a vida, o sinal da vida.

Transmitir movimento é pois ou transmitir vida ou despertar vida. Vida não se pode transmitir. Só portanto despertar. Para a despertar é preciso que a haja onde a despertemos.

Uma pedra tem portanto vida, um grau ínfimo de vida talvez, mas sempre vida.

Vida é consciência.


Título: INTERVALO (O homem que na Avenida fugia das folhas)
Heterónimo: Vicente Guedes
Número: 205
Página: 187
Nota: [138A-19, ms.];
Nota: Apenas Teresa Sobral Cunha inclui este texto no corpus do "Livro do Desassossego". Texto retirado na edição de 2013.
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