AS TRÊS PORTAS DA CIDADE


AS TRÊS PORTAS DA CIDADE

Há só três coisas que libertam do burguesismo, da banalidade: o tédio, o misticismo, o raciocínio — um porque acha tudo oco, outro porque acha a tudo artisticamente um outro e íntimo sentido, e o terceiro porque destrói tudo e se absorve nas suas análises ininterruptas, e contraria por sistema e interpretação o analisado.

A arte não: o burguês gosta do belo. Um belo inferior?

Seja o que for, gosta do belo (gostar do feio pode ser até um modo de revolta contra o burguês por a originalidade do gosto como Baudelaire tentou). O tédio difere do aborrecimento. (Como a preguiça da abulia. Como uma fúria da zanga, de um acesso de loucura.) Uma coisa contraria o sentido de poder e querer sair dela, a visão do contrário. O tédio não, penetra até ao sonho.

A distracção? Nunca.


Título: AS TRÊS PORTAS DA CIDADE
Heterónimo: Vicente Guedes
Número: 227
Página: 204
Nota: [14(2)-14a, ms.];
Nota: Apenas Teresa Sobral Cunha inclui este texto no corpus do "Livro do Desassossego". Texto retirado do corpus na edição de 2013.
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