Jacinto do Prado Coelho

Invejo — mas não sei se invejo



L. do D.

Invejo — mas não sei se invejo — aquelles de quem se póde escrever uma biografia, ou que podem escrever a propria. Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indifferentemente a minha autobiografia sem factos, a minha historia sem vida. São as minhas Confissões, e, se nellas nada digo, é que nada tenho que dizer.

Que ha(-de alguem) confessar que valha ou que sirva? O que nos succedeu, ou succedeu a toda a gente ou só a nós; num caso não é novidade, e no outro não é de comprehender. Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importancia. Faço paisagens com o que sinto. Faço ferias das sensações. Comprehendo bem as bordadoras por magua e as que fazem meia porque ha vida. Minha tia velha fazia paciencias durante o infinito do serão. Estas confissões de sentir são paciencias minhas. Não as interpreto, como quem usasse cartas para saber o destino. Não as ausculto, porque nas paciencias as cartas não teem propriamente valia. Desenrolo-me como uma meada multicolor, ou faço commigo figuras de cordel, como as que se tecem nas mãos espetadas e se passam de umas creanças para as outras. Cuido só de que o pollegar não falhe o laço que lhe compete. Depois viro a mão e a imagem fica differente. E recomeço.

Viver é fazer meia com uma intenção dos outros. Mas, ao faze-la, o pensamento é livre, e todas [sic] os principes encantados podem passear nos seus parques entre mergulho e mergulho da agulha de marfim com bico reverso. Crochet das coisas... Intervallo... Nada.....

De resto, com que posso contar commigo? Uma acuidade horrivel das sensações, e a comprehensão profunda de estar sentindo... Uma intelligencia aguda para me destruir, e um poder de sonho soffrego de me entreter... Uma vontade morta e uma reflexão que a embala, como a um filho vivo... Sim, crochet...

Teresa Sobral Cunha

Richard Zenith

Jerónimo Pizarro