Jacinto do Prado Coelho

A arte consiste em fazer os outros sentir



L. do D.

1/12/1931

A arte consiste em fazer os outros sentir o que nós sentimos, em os libertar d'elles mesmos, propondo-lhes a nossa personalidade para especial libertação. O que sinto, na verdadeira substancia com que o sinto, é absolutamente incommunicavel; e quanto mais profundamente o sinto, tanto mais incommunicavel é. Para que eu, pois, possa transmittir a outrem o que sinto, tenho que traduzir os meus sentimentos na linguagem d'elle, isto é, que dizer taes coisas como sendo as que eu sinto, que elle, lendo-as, sinta exactamente o que eu senti. E como este outrem é, por hypothese de arte, não esta ou aquella pessoa, mas toda a gente, isto é, aquella pessoa que é commum a todas as pessoas, o que, afinal, tenho que fazer é converter os meus sentimentos num sentimento humano typico, ainda que pervertendo a verdadeira natureza d'aquillo que senti.

Tudo quanto é abstracto é difficil de comprehender, porque é difficil de conseguir para elle a attenção de quem o leia. Darei, por isso, um exemplo simples, em que as abstracções que formei se concretizarão. Supponha-se que, por um motivo qualquer, que póde ser o cansaço de fazer contas ou o tedio de não ter que fazer, cahe sobre mim uma tristeza vaga da vida, uma angustia de mim que me perturba e inquieta. Se vou traduzir esta emoção por phrases que de perto a cinjam, quanto mais de perto a cinjo, mais a dou como propriamente minha, menos, portanto, a communico a outros. E, se não ha communical-a a outros, é mais justo e mais facil sentil-a sem a escrever.

Supponha-se, porém, que desejo communical-a a outros, isto é, fazer d'ella arte, pois a arte é a communicação aos outros da nossa identidade intima com elles; sem o que nem ha communicação nem necessidade de a fazer. Procuro qual será a emoção humana vulgar que tenha o tom, o typo, a fórma d'esta emoção em que estou agora, pelas razões inhumanas e particulares de ser (um) guarda-livros cansado ou (um) lisboeta aborrecido. E verifico que o typo de emoção vulgar que produz, na alma vulgar, esta mesma emoção é a saudade da infancia perdida.

Tenho a chave para a porta do meu thema. Escrevo e choro a minha infancia perdida; demoro-me commovidamente sobre os pormenores de pessoas e mobilia da velha casa na provincia; evoco a felicidade de não ter direitos nem deveres, de ser livre por não saber pensar nem sentir — e esta evocação, se fôr bem feita como prosa e visões, vae dispertar no meu leitor exactamente a emoção que eu senti, e que nada tinha com infancia.

Menti? Não, comprehendi. Que a mentira, salvo a que é infantil e espontanea, e nasce da vontade de estar a sonhar, é tamsòmente a noção da existencia real dos outros e da necessidade de conformar a essa existencia a nossa, que se não póde conformar a ella. A mentira é simplesmente a linguagem ideal da alma, pois, assim como nos servimos de palavras, que são sons articulados de uma maneira absurda, para em linguagem real traduzir os mais intimos e subtis movimentos da emoção e do pensamento, que as palavras forçosamente não poderão nunca traduzir, assim nos servimos da mentira e da ficção para nos entendermos uns aos outros, o que com a verdade, propria e intransmissivel, se nunca poderia fazer.

A arte mente porque é social. E ha só duas grandes formas de arte — uma que se dirige à nossa alma profunda, a outra que se dirige à nossa alma attenta. A primeira é a poesia, o romance a segunda. A primeira começa a mentir na propria estructura; a segunda começa a mentir na propria intenção. Uma pretende dar-nos a verdade por meio de linhas variadamente regradas, que mentem à inherencia da falla; outra pretende dar-nos a verdade por uma realidade que todos sabemos bem que nunca houve.

Fingir é amar. Nem vejo nunca um lindo sorriso ou um olhar significativo que não medite, de repente, e seja de quem fôr o olhar ou o sorriso, qual é, no fundo da alma em cujo rosto se sorri ou olha, o estadista que nos quer comprar ou a prostituta que quer que a compremos. Mas o estadista que nos compra amou, ao menos, o comprar-nos; e a prostituta, a quem compremos, amou, ao menos, o comprarmol-a. Não fugimos, por mais que queiramos, á fraternidade universal. Amamo-nos todos uns aos outros, e a mentira é o beijo que trocamos.

Teresa Sobral Cunha

Richard Zenith

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