Jacinto do Prado Coelho

Teresa Sobral Cunha

Richard Zenith

Jerónimo Pizarro

Eu não sonho possuir-te



Eu não sonho possuir-te. Para que? Era traduzir para plebeu o meu sonho. Possuir um corpo é sêr banal. Sonhar possuir um corpo é talvez peor, ainda que seja difficil sel-o: é sonhar-se banal — horror supremo.

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E já que queremos ser estereis, sejamos tambem castos, porque nada pode haver de mais ignobil e baixo do que, renegando da Natureza o que n'ella é fecundado, guardar villãmente d'ella o que nos praz no que renegamos. Não ha nobreza aos bocados.

Sejamos castos como /labios mortos/, puros como corpos sonhados, resignados a ser tudo isto, como freirinhas doidas...

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Que o nosso amor seja uma oração... Unge-me de vêr-te que eu farei dos meus momentos de te sonhar um rosario onde / os meus tedios serão padre-nossos e as minhas angustias ave-marias... /

Fiquemos assim eternamente como uma figura de homem em vitral defronte de uma figura de mulher n'outro vitral... Entre nós, sombras cujos passos sôam frios, a humanidade passando... Murmurios de rezas, segredos de ☐ passarão entre nós... Umas vezes enche-se bem o ar de ☐ de incensos. Outras vezes, para este lado e para aquelle uma figura de estatua rezará aspersões... E nós sempre os mesmos vitraes, ora côres quando o sol nos bata, ora linhas quando a noite caia... Os seculos não tocarão no nosso silencio vitreo... Lá fóra passarão civilizações, escacharão revoltas, turbilhonarão festas, correrão mansos quotidianos povos... E nós, ó meu amôr irreal, teremos sempre o mesmo gesto inutil, a mesma existencia falsa, e a mesma ☐ até [que] um dia, no fim de uns seculos de imperios, a Egreja finalmente rúa e tudo acabe...

Mas nós que não sabemos d'ella ficaremos ainda, não sei como, não sei em que espaço, não sei porque tempo, vitraes eternos, horas de ingenuo desenho pintado por um qualquer artista que dorme ha muito sob um tumulo godo onde dois anjos de mãos postas gelam em marmore a idéa de morte.