Jacinto do Prado Coelho

Teresa Sobral Cunha

NOSSA SENHORA DO SILÊNCIO | Eu não sonho possuir-te



Eu não sonho possuir-te. Para quê? Era traduzir para plebeu o meu sonho. Possuir um corpo é ser banal. Sonhar possuir um corpo é talvez pior, ainda que seja difícil sê-lo: é sonhar-se banal — horror supremo.

E já que queremos ser estéreis, sejamos também castos, porque nada pode haver de mais ignóbil e baixo do que, renegando da Natureza o que nela é fecundado, guardar vilãmente dela o que nos praz no que renegámos. Não há nobreza aos bocados.

Sejamos castos como lábios mortos, puros como corpos sonhados, resignados a ser tudo isto, como freirinhas doidas...

Que o nosso amor seja uma oração... Unge-me de ver-te que eu farei dos meus momentos de te sonhar um rosário onde / os meus tédios serão padre-nossos e as minhas angústias ave-marias... /

Fiquemos assim eternamente como uma figura de homem em vitral defronte de uma figura de mulher noutro vitral... Entre nós, sombras cujos passos soam frios, a humanidade passando... Murmúrios de rezas, segredos de (...) passarão entre nós... Umas vezes enche-se bem o ar de (...) de incensos. Outras vezes, para este lado e para aquele, uma figura de estátua rezará aspersões... E nós sempre os mesmos vitrais, ora cores quando o sol nos bata, nas linhas quando a noite caia... Os séculos não tocarão no nosso silêncio vítreo... Lá fora passarão civilizações, escacharão revoltas, turbilhonarão festas, correrão mansos quotidianos povos... E nós, ó meu amor viril, teremos sempre o mesmo gesto inútil, a mesma existência falsa, e a mesma (...)

Até [que] um dia, no fim de vários séculos de impérios, a Igreja finalmente rua e tudo acabe...

Mas nós que não sabemos dela ficaremos ainda, não sei como, não sei em que espaço, não sei por que tempo, vitrais eternos, horas de ingénuo desenho pintado por um qualquer artista que dorme há muito sob um túmulo godo onde dois anjos de mãos postas gelam em mármore a ideia de morte.

Richard Zenith

Jerónimo Pizarro