Jacinto do Prado Coelho

Esthetica da Indifferença



Esthetica da Indifferença

Perante cada cousa o que o sonhador deve procurar sentir é a nitida indifferença que ella, no que cousa, lhe causa.

Saber, com um immediato instincto, abstrahir de cada objecto ou acontecimento o que elle pode ter de sonhavel, deixando morto no Mundo Exterior tudo quanto elle tem de real — eis o que o sabio deve procurar realizar em si-proprio.

Nunca sentir sinceramente os seus proprios sentimentos, e elevar o seu palido triumpho ao ponto de olhar indifferentemente para as suas proprias ambições, ancias e desejos; passar pelas suas alegrias e angustias como quem passa por quem não lhe interessa...

O maior dominio de si-proprio é a indifferença por si-proprio, tendo-se, alma e corpo, por a casa e a quinta onde o Destino quiz que passassemos a nossa vida.

Tratar os seus proprios sonhos e intimos desejos altivamente, en grand seigneur, (...), pondo uma intima delicadeza em não reparar n'elles. Ter o pudôr de si-proprio; perceber que na nossa presença não estamos sós, que somos testemunhas de nós-mesmos, e que porisso importa agir perante nós mesmos como perante um extranho, com uma estudada e serena linha exterior, indifferente porque fidalga, e fria porque indifferente.

Para não descermos aos nossos proprios olhos, basta que nos habituemos a não ter nem ambições, nem paixões, nem desejos, nem esperanças, nem impulsos, nem desassocego. Para conseguir isto lembremo-nos sempre que estamos sempre em presença nossa, que nunca estamos sós, para que possamos estar à vontade. E assim dominaremos o ter paixões e ambições porque paixões e ambições são desescudármo-nos; não teremos desejos nem esperanças, porque desejos e esperanças são gestos baixos e deselegantes; nem teremos impulsos e desassocegos porque a precipitação é uma indelicadeza para com os olhos dos outros, e a impaciencia é sempre uma grosseria.

O aristocrata é aquelle que nunca esquece que nunca está só; porisso as praxes e os protocolos são /apanagio/ das aristocracias. Interiorizemos o aristocrata. Arranquemol-o aos salões e /aos jardins/ passando-o para a nossa alma e para a nossa consciencia de existirmos. Estejamos sempre deante de nós em protocollos e praxes, em gestos estudados e para-(os)-outros.

Cada um de nós é uma sociedade inteira, [...], convém que ao menos tornemos elegante e distinta a vida desse bairro, que nas festas das nossas sensações haja requinte e recato, e […] sobria a cortezia nos banquetes dos nossos pensamentos. Em torno a nós poderão as outras almas erguerem-se os seus bairros sujos e pobres; marquemos nitidamente onde o nosso acaba e começa, e que desde a frontaria dos predios até às alcovas das nossas timidezes, tudo seja fidalgo e sereno, esculpido n'uma /sobriedade/ ou surdina de exhibição.

Saber encontrar a cada sensação o modo sereno de ella se realizar. Fazer o amor resumir-se apenas a uma sombra de ser sonho de amor, pallido e tremulo intervallo entre os cimos de duas pequenas ondas onde o luar bate. Tornar o desejo uma cousa inutil e inoffensiva, no como que sorriso delicado da alma a sós consigo propria; fazer d'ella uma cousa que nunca pense em realizar-se nem em dizer-se. Ao odio adormecel-o como a uma serpente prisioneira, e dizer ao medo que dos seus gestos guarde apenas a agonia no olhar, e no olhar da nossa alma, unica attitude compativel com ser esthetica.

Teresa Sobral Cunha

Richard Zenith

Jerónimo Pizarro