Jacinto do Prado Coelho

Cenotaphio



Cenotaphio

Nem viuva nem filho lhe poz na bocca o obulo, com que pagasse a Charonte. São velados para nós os olhos com que transpoz a Styge e viu nove vezes reflectido nas águas inferas o rosto que não conhecemos. Não tem nome entre nós a sombra agora errante nas margens dos rios soturnos; o seu nome é sombra também.

Morreu pela Patria, sem saber como nem porquê. O seu sacrifício teve a gloria de não se conhecer. Deu a vida com toda a inteireza da alma: por instincto, não por dever; por amor à Patria, não por consciência d'ella. Defendeu-a como quem defende uma mãe, de quem somos filhos não por logica, senão por nascimento. Fiel ao segredo primevo, não pensou nem quiz, mas viveu a sua morte instinctivamente, como havia vivido a sua vida. A sombra que usa agora se irmana como as que cahiram em Thermopylas, fieis na carne ao juramento em que haviam nascido.

Morreu pela Pátria como o sol nasce todos os dias. Foi por natureza o que a Morte havia de tornal-o.

Não cahiu servo de uma fé ardente, não o mattaram combatendo pela baixeza de um grande ideal. Livre da injuria da fé e do insulto do humanitarismo, não cahiu em defensa de uma idéa politica, ou do futuro da humanidade, ou de uma religião por haver. Longe da fé no outro mundo, com que se enganam os credulos de Mahomet e os sequazes de Christo, viu a morte chegar sem esperar nella a vida, viu a vida passar sem que esperasse vida melhor.

Passou naturalmente, como o vento e o dia, levando comsigo a alma, que o fizera differente. Mergulhou na sombra como quem entra na porta onde chega. Morreu pela Patria, a unica cousa superior a nós de que temos conhecimento e razão. O paraizo do mahometano ou christão, o esquecimento transcendente do Buddhista não se lhe reflectiram nos olhos quando nelles se apagou a chama, que o fazia vivo na terra.

Não soube quem foi, como não sabemos quem é. Cumpriu o dever, sem saber o que cumpria. Guiou-o o que faz florir as rosas e ser bella a morte das folhas. A vida não tem razão melhor nem a morte melhor galardão.

... do heroismo simples, sem céu a ganhar pelo martyrio, ou humanidade a salvar pelo exforço; da velha raça pagan que pertence à Cidade e para fóra de quem estão os barbaros e os inimigos.

... mas na emoção com que o filho quer à mãe, porque ella é a sua mãe e não por elle ser seu filho (?)

Visita agora, conforme os deuses concedem, as regiões onde não ha a luz, passando os lamentos de Cocyto, e o fogo de Phlegethonte e ouvindo na noite o lapso leve da livida onda lethéa.

Elle é anonymo como o instincto que o mattou. Não pensou que ia morrer pela Pátria; morreu por ella. Não determinou cumprir o seu dever; cumpriu-o. A quem não teve nome na alma, justo é que não perguntemos que nome definiu o seu corpo. Foi portuguez; não sendo tal portuguez, é o portuguez sem limitação.

O seu logar não é ao pé dos creadores de Portugal, cuja estatura é outra, e outra a consciência. Não lhe cabe a companhia dos semi-deuses, por cuja audacia cresceram os caminhos do mar e houve mais terra que caber no nosso alcance.

Nem estatua nem lápide narre quem foi o que foi todos nós; como é todo o povo, deve ter por tumulo toda esta terra. Em sua propria memoria o devemos sepultar, e por lapide por-lhe o seu exemplo apenas.

Teresa Sobral Cunha

Richard Zenith

Jerónimo Pizarro