Jacinto do Prado Coelho

Onde está Deus



L. do D.

Onde está Deus, mesmo que não exista? Quero rezar e chorar, arrepender-me de crimes que não cometti, gosar ser perdoado como uma caricia não propriamente materna.

Um regaço para chorar, mas um regaço enorme, sem forma, espaçoso como uma noite de verão, e contudo proximo, quente, feminino, ao pé de uma lareira qualquér... Poder alli chorar cousas impensaveis, fallencias que nem sei quaes são, ternuras de cousas inexistentes, e grandes duvidas arrepiadas de não sei que futuro...

Uma infancia nova, uma ama velha outra vez, e um leito pequeno onde acabe por dormir, entre contos que emballam, mal ouvidos, com uma attenção que se torna morna, os perigos que penetravam em jóvens cabelos louros como o trigo... E tudo isto muito grande, muito eterno, definitivo para sempre, da estatura unica de Deus, lá no fundo triste e somnolento da realidade ultima das cousas...

Um collo ou um berço ou um braço quente em torno ao meu pescoço... Uma voz que canta baixo e parece querer fazer-me chorar... O ruido de lume na lareira... Um calôr no inverno... Um extravio morno da minha consciencia... E depois sem som, um sonho calmo n'um espaço enorme, como a lua rodando entre estrelas...

Quando ponho de parte os meus [...] e arrumo a um canto, com um cuidado cheio de carinho — com vontade de lhes dar beijos — os meus brinquedos, as palavras, as imagens, as phrases — fico tão pequeno e inoffensivo, tão só n'um quarto tão grande e tão triste, tão profundamente triste! ...

Afinal eu quem sou, quando não brinco? Um pobre orphão abandonado nas ruas das sensações, tiritando de frio às esquinas da Realidade, tendo que dormir nos degraus da Tristeza e comer o pão dado da Phantasia. De um pae sei o nome; disseram-me que se chamava Deus, mas o nome não me dá idea de nada. Às vezes, na noite, quando me sinto só, chamo por elle e chóro, e faço-me uma idéa d'elle a quem possa amar... Mas depois penso que o não conheço, que talvez elle não seja assim, que talvez não seja nunca esse o pae da minha alma...

Quando acabará isto tudo, estas ruas onde arrasto a minha miseria, e estes degraus onde encolho o meu frio e sinto as mãos da noite por entre os meus farrapos? Se um dia Deus me viesse buscar e me levasse para sua casa e me desse calôr e affeição... Às vezes penso isto e chóro com alegria a pensar que o posso pensar... Mas o vento arrasta-se pela rua fora e as folhas cahem no passeio... Ergo os olhos e vejo as estrellas que não teem sentido nenhum... E de tudo isto fico apenas eu, uma pobre creança abandonada, que nenhum Amôr quiz para seu filho adoptivo, nem nenhuma Amizade para seu companheiro de brinquedos.

Tenho frio demais. Estou tão cançado no meu abandono. Vae buscar, ó Vento, a minha Mãe. Leva-me na Noite para a casa que não conheci... Torna a dar-me ó Silêncio [...], a minha ama e o meu berço e a minha canção com que eu dormia.

Teresa Sobral Cunha

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