Jacinto do Prado Coelho

Teresa Sobral Cunha

Nunca deixo saber às minhas sensações



Nunca deixo saber às minhas sensações o que lhes vou fazer sentir... Brinco com as minhas sensações como uma princesa cheia de tédio com os seus grandes gatos prontos e cruéis...

Fecho subitamente portas dentro de mim, por onde certas sensações iam passar para se realizarem. Retiro bruscamente do seu caminho os objectos espirituais que lhes vão vincar certos gestos.

Pequenas frases sem sentido metidas nas conversas que supomos estar tendo; afirmações absurdas feitas com cinzas de outras que já de si não significam nada.

— O seu olhar tem qualquer coisa de música tocada a bordo dum barco, no meio misterioso de um rio com florestas na margem oposta...

— Não diga que é fria uma noite de luar. Abomino as noites de luar... Há quem costume realmente tocar música nas noites de luar...

— Isso também é possível... E é lamentável, está claro... Mas o seu olhar tem realmente o desejo de ser saudoso de qualquer coisa... Falta-lhe o sentimento que exprime... Acho na falsidade da sua expressão uma quantidade de ilusões que tenho tido...

— Creia que sinto às vezes o que digo, e até, apesar de mulher, o que digo com o olhar...

— Não está sendo cruel para consigo própria? Nós sentimos realmente o que pensamos que estamos sentindo? Esta nossa conversa, por exemplo, tem visos de realidade? Não tem. Num romance não seria admitida.

— Com muita razão... Eu não tenho a absoluta certeza de estar falando consigo, repare... Apesar de mulher, criei-me um dever de ser estampa de um livro de impressões de um desenhista doido... Tenho em mim detalhes exageradamente nítidos... Dá um pouco, bem sei, a impressão de realidade excessiva e um pouco forçada... Acho que a única coisa digna de uma mulher contemporânea é este ideal de ser estampa. Quando eu era criança queria ser a rainha dum naipe qualquer num baralho de cartas antigo que havia em minha casa... Achava esse mister de uma duma heráldica realmente compassiva... Mas quando se é criança, têm-se aspirações morais destas... Só depois, na idade em que as nossas aspirações são todas imorais, é que pensamos nisso a sério...

— Eu, como nunca olho para crianças, creio no instinto artista delas... Sabe, enquanto estou falando, agora mesmo, eu estou querendo penetrar o íntimo sentido dessas coisas que me estava dizendo... Perdoa-me?

— Não de todo... Nunca se deve devassar os sentimentos que os outros fingem que têm. São sempre demasiadamente íntimos... Acredite que me dói realmente estar-lhe fazendo estas confidências íntimas, que, se bem que todas elas falsas, representam verdadeiros farrapos da minha pobre alma... No fundo, acredite, o que somos de mais doloroso é o que não somos realmente, e as nossas maiores tragédias passam-se na ideia que fazemos de nós.

— Isso é tão verdadeiro... Para que dizê-lo? Feriu-me. Para quê tirar à nossa conversa a sua irrealidade constante?...

Assim é quase uma conversa possível, passada a uma mesa de chá, entre uma mulher linda e um imaginador de sensações.

— Sim, sim... É a minha vez de pedir perdão... Mas olhe que eu estava distraída e não reparei realmente em que tinha dito uma coisa justa... Mudemos de assunto... Que tarde que é sempre!... Não se torne a zangar... Olhe que esta minha frase não tem sentido absolutamente nenhum...

— Não me peça desculpas, não repare em que estamos falando... Toda a boa conversa deve ser um monólogo de dois... Devemos, no fim, não poder ter a certeza se conversámos realmente com alguém ou se imaginámos totalmente a conversa... As mais deliciosas e as mais íntimas conversas e, sobretudo, as menos moralmente instintivas, são aquelas que os romancistas têm entre duas personagens das suas novelas... Como exemplo...

— Por amor de Deus! Não ia decerto citar-me um exemplo... Isso só se faz nas gramáticas; não sei se se recorda que nem nunca as lemos.

— Leu alguma vez uma gramática?

— Eu nunca. Tive sempre uma aversão profunda a saber como se dizem as coisas... A minha única simpatia, nas gramáticas, ia para as excepções e para os pleonasmos... Escapar às regras e dizer coisas inúteis resume bem a atitude essencialmente moderna... Não é assim que se diz?...

— Absolutamente... O que tem de antipático nas gramáticas (já reparou na deliciosa impossibilidade de estarmos falando neste assunto?) — o que há de mais antipático nas gramáticas é o verbo, os verbos... São as palavras que dão sentido às frases... Uma frase honesta deve sempre poder ter vários sentidos... Os verbos!... Um amigo meu que se suicidou — cada vez que tenho uma conversa um pouco longa suicido um amigo - tinha tencionado dedicar toda a sua vida a destruir os verbos...

— (Ele porque se suicidou?)

— Espere, ainda não sei... Ele pretendia descobrir e fixar o modo de não completar as frases sem parecer fazê-lo. Ele costumava dizer-me que procurava o micróbio da significação... Suicidou-se, é claro, porque um dia reparou na responsabilidade imensa que tomara sobre si... A importância do problema deu-lhe cabo do cérebro... Um revólver...

— Ah, não... Isso de modo algum... Não vê que não podia ser um revólver?... Um homem desses nunca dá um tiro na cabeça... O senhor pouco se entende com os amigos que nunca teve... É um defeito grande, sabe?... A minha melhor amiga — uma rapaz que eu inventei...

— Dão-se bem?

— Tanto quanto é possível... Mas essa rapariga, não imagina, (...)

As duas criaturas que estavam à mesa de chá não tiveram com certeza esta conversa. Mas estavam tão alinhados e bem vestidos que era pena que não falassem assim... Por isso escrevi esta conversa para elas a terem tido... As suas atitudes, os seus pequenos gestos, as suas criancices de olhares e sorrisos, nos momentos de conversa que ambos entendemos no sentimento de existirem disseram nitidamente o que falsamente finjo que reporto... Quando eles um dia forem ambos e sem dúvida casados cada um para seu lado — em intentos de mais juntos, para poderem casar com o outro —, se eles por acaso olharem para estas páginas, acreditem que reconhecerão o que nunca disseram e que não deixarão de me ser gratos por eu ter interpretado tão bem não só o que eles são realmente, mas o que eles nunca desejaram ser nem sabiam que eram...

Eles, se me lerem, acreditem que foi isto que realmente disseram. Na conversa aparente que eles escutaram um ao outro faltavam tantas coisas que (...) — faltou o perfume da hora, o aroma do chá, a significação para o caso do ramo de (...) que ela tinha ao peito... Tudo isso, que assim formou parte da conversa, eles se esquecem de dizer... Mas tudo isto lá estava e o que eu faço é, mais do que um trabalho literário, um trabalho de historiador. Reconstruo, completando... e isso me servirá de desculpa junto deles, de ter estado tão fixamente a escutar-lhes o que não podiam deixar de vir a ter dito.

Richard Zenith