Jacinto do Prado Coelho

Teresa Sobral Cunha

Richard Zenith

ANEXO | 161



      /Sonitus/ desilientes aquae

No ar frio da noite calma
Boia á vontade a minh'alma
Quasi sem querer viver
Sente os momentos correr,
Como uma folha no rio,
Sente contra si o frio
Das heras fluidas levando
Seu inerte corpo brando.

Mais do que isto? Para quê?
Tudo quanto o olhar vê
A mão toca, o ouvido escuta,
A consciencia perscruta,
É inutil que se escutasse,
Que se visse sentisse ou e se pensasse.

Entre a[s] marge〈m〉/ns\ com arbustos
Luzes na noite dos sustos,
Sob o luar repousado,
Ao correr vago e amparado
Do rio deixado e livre
A alma passa, a alma hora vive.

Ninguem. Só eu e o segredo
Do luar e do arvoredo
Que das margens /causou/ medo.

                    2
Nada. Só a hora inutil
Só o sacrificio futil
De desejar sem querer
E sem razão esquecer.

Prolixa memoria, toda
Rio indo como uma roda,
Noite 〈surda como um〉 como um lago mudo,
E a incerteza de tudo.

Recosto-me, e a lua dorme.
Cerca-me o que a noite enorme
Attribue á minha magua
Como um seu 〈mur〉 murmurio de agua.

Ninguem; a noite e o luar.
Nada; nem saber pensar.
Raie o dia, ou morra eu,
Volte no oriente do ceu
O sol ou não volte mais,
São sempre os tedios eguaes
E os barcos, calmos a medo,
Como 〈um〉 o rio entre o arvoredo,
De 〈misterio〉 nocturno cemiterio,
Ou fluido, vago misterio.

/O mal de haver A dor é de haver consciencia./
Tristeza de ter consciencia!

                                                  8/10/1919