Jacinto do Prado Coelho

Teresa Sobral Cunha

Richard Zenith

Jerónimo Pizarro

Já me cansa a rua



Já me cansa a rua, mas não, não me cansa — tudo é rua na vida. Ha a taberna defronte, que vejo se olhar por cima do hombro direito; e ha a caixotaria defronte, que vejo se olhar por cima do hombro esquerdo; e, no meio, que não verei se me não voltar de todo, o sapateiro enche de som regular o portão do escriptorio da Companhia Africana. Os outros andares são indeterminados. No 3º andar ha uma pensão, dizem que immoral, mas isso é como toda a vida.

Cansar-me a rua? Canso-me só quando penso. Quando olho a rua, ou a sinto, não penso: trabalho com um grande repouso intimo, util naquelle canto, escripturantemente ninguem. Não tenho alma, ninguem tem alma — tudo é trabalho na carne. Longe, onde os millionarios gosam, sempre no estrangeiro d'elles, tambem ha trabalho, e tambem não ha alma. Fica de tudo um ou outro poeta. Quem me dera que de mim ficasse uma phrase, uma coisa dicta de que se dissesse, Bem feito!, como os numeros que vou inscrevendo, copiando-os, no livro da minha vida inteira.

Nunca deixarei, creio, de ser ajudante de guarda-livros de um armazem de fazendas. Desejo, com uma sinceridade que é feliz, não passar nunca a guarda-livros.