Jacinto do Prado Coelho

Teresa Sobral Cunha

MARCHA FÚNEBRE PARA O REI LUÍS SEGUNDO DA BAVIERA | Que faz cada um neste mundo



MARCHA FÚNEBRE PARA O REI
LUÍS SEGUNDO DA BAVIERA

Que faz cada um neste mundo, que o perturbe ou o altere?

Cada homem que vale, que outro homem não valha? Valem os homens vulgares uns pelos outros, os homens de acção pela força que interpretam, os homens do pensamento por o que criam.

O que criaste para a humanidade está à mercê do esfriamento da Terra. O que deste aos pósteros, ou é cheio de ti, e ninguém o entenderá, ou da tua época, e as outras épocas o não entenderão, ou tem apelo para todas as épocas e não o entenderá o abismo final, em que todas as épocas se precipitam.

Fazemos fórmulas, gestos na sombra. Por detrás de nós o Mistério nos espreita.

Somos todos mortos, com uma duração justa. Nunca maior ou menor. Alguns morrem logo que morrem, outros vivem um pouco, na memória dos que os odiaram e amaram; outros, ficam na memória da nação que os teve; alguns alcançam a memória da civilização que os possuiu; raros abrangem, de lado a lado, o lapso contrário de civilizações diferentes... Mas a todos cerca o abismo do tempo, que por fim os some, a todos come a fome do abismo, que (...)

O perene é um desejo, e o eterno uma ilusão.

Morte somos e morte vivemos. Mortos nascemos; mortos passamos; mortos já, entramos na Morte.

Tudo quanto vive, vive porque muda; muda porque passa; e, porque passa, morre. Tudo quanto vive perpetuamente se torna outra coisa, constantemente se nega e se furta à vida.

A vida é pois um intervalo, um nexo, uma relação, mas uma relação entre o que passa e o que passará, intervalo morto entre a morte e a morte.

A vida da matéria ou é puro sonho, ou mero jogo atómico, que desconhece as conclusões da nossa inteligência, ficção de superfície e do descaminho, e os motivos da nossa emoção. Assim a essência da vida é uma ilusão, uma aparência, ou é só ser ou não ser, e a ilusão e aparência de nada ser, tem que ser não-ser, a vida é a morte.

Vão o esforço que constrói com os olhos na ilusão de não morrer! "Poema eterno", dizemos nós; "palavras que nunca morrerão"! Mas o esfriamento material da terra levará não só os vivos que a cobrem, com o (...)

Um Homero ou um Milton não podem mais que um cometa que bata na terra.

Richard Zenith