Jacinto do Prado Coelho

Teresa Sobral Cunha

Richard Zenith

MARCHA FÚNEBRE [Que faz cada um]



MARCHA FÚNEBRE

Que faz cada um neste mundo, que o perturbe ou o altere? Cada homem que vale, que outro homem não valha? Valem os homens vulgares uns pelos outros, os homens de acção pela força que interpretam, os homens de pensamento por o que criam.

O que criaste para a humanidade, está à mercê do esfriamento da Terra. O que deste aos pósteros, ou é cheio de ti, e ninguém o entenderá, ou da tua época, e as outras épocas o não entenderão, ou tem apelo para todas as épocas e não o entenderá o abismo final, em que todas as épocas se precipitam.

Fazemos passadas, gestos na sombra. Por detrás de nós o Mistério nos ☐.

Somos todos mortos, com uma duração justa. Nunca maior ou menor. Alguns morrem logo que morrem, outros vivem um pouco, na memória dos que os viram e ouviram; outros, ficam na memória da nação que os teve; alguns alcançam a memória da civilização que os possuiu; raros abrangem, de lado a lado, o lapso contrário de civilizações diferentes... Mas a todos cerca o abismo do tempo, que por fim os some, a todos come a fome do abismo ☐

O perene é um desejo, e o eterno uma ilusão.

Morte somos e morte vivemos. Mortos nascemos; mortos passamos; mortos já, entramos na Morte.

Tudo quanto vive, vive porque muda; muda porque passa; e, porque passa, morre. Tudo quanto vive perpetuamente se torna outra coisa, constantemente se nega e se furta à vida.

A vida é pois um intervalo, um nexo, uma relação, mas uma relação entre o que passou e o que passará, intervalo morto entre a Morte e a Morte.

... a inteligência, ficção da superfície e do descaminho.

A vida da matéria ou é puro sonho, ou mero jogo atómico, que desconhece as conclusões da nossa inteligência e os motivos da nossa emoção. Assim a essência da vida é uma ilusão, uma aparência, e ou há só ser ou não-ser, e a ilusão e aparência não sendo ser, têm que ser não-ser, a vida é a morte.

Vão o esforço que constrói com os olhos na ilusão de não morrer! "Poema eterno", dizemos nós; "palavras que nunca morrerão". Mas o esfriamento material da terra levará não só os vivos que a cobrem, com o ☐

Um Homero ou um Milton não podem mais que um cometa que bata na Terra.