Receção Crítica - Usa Jacinto do Prado Coelho(198)

Passei entre elles extrangeiro


L. do D.

7-4-1933

Passei entre elles extrangeiro porém nenhum viu que eu o era. Vivi entre elles espião, e ninguem, nem eu, suspeitou que eu o fosse. Todos me tinham por parente: nenhum sabia que me haviam trocado à nascença. Assim fui egual aos outros sem similhança, irmão de todos sem ser da familia.

Vinha de prodigiosas terras, de paisagens melhores que a vida, mas das terras nunca fallei, senão commigo, e das paisagens, vistas se sonhava, nunca lhes dei noticia. Meus passos eram como os d'elles nos soalhos e nas lages, mas o meu coração estava longe, ainda que batesse perto, senhor falso de um corpo desterrado e extranho.

Ninguem me conheceu sob a mascara da egualha, nem soube nunca que era mascara, porque ninguem sabia que neste mundo ha mascarados. Ninguem suppoz que ao pé de mim estivesse sempre outro, que afinal era eu. Julgaram-me sempre identico a mim.

Abrigaram-me as suas casas, as suas mãos apertaram a minha, viram-me passar na rua como se eu lá estivesse; mas quem sou não esteve nunca naquellas salas, quem vivo não tem mãos que outros apertem, quem me conheço não tem ruas por onde passe, a não ser que sejam todas as ruas, nem que nellas o veja, a não ser que elle mesmo seja todos os outros.

Vivemos todos longinquos e anonymos; disfarçados, soffremos desconhecidos. A uns, porém, esta distancia entre um ser e elle mesmo nunca se revela; para outros é de vez em quando illuminada, de horror ou de magua, por um relampago sem limites; mas para outros ainda é essa a dolorosa constancia e quotidianidade da vida.

Saber bem que quem somos não é comnosco, que o que pensamos ou sentimos é sempre uma traducção, que o que queremos o não quizemos, nem porventura alguem o quiz — saber tudo isto a cada minuto, sentir tudo isto em cada sentimento, não será isto ser extrangeiro na propria alma, exilado nas proprias sensações?

Mas a mascara, que estive fitando inerte, que fallava à esquina com um homem sem mascara nesta noite de fim de Carnaval, por fim extendeu a mão e se despediu rindo. O homem natural seguiu à esquerda, pela travessa a cuja esquina estava. A mascara — dominó sem graça — caminhou em frente, afastando-se entre sombras e acasos de luzes, numa despedida definitiva e alheia ao que eu estava pensando. Só então reparei que havia mais na rua que os candieiros accesos, e, a turvar onde elles não estavam, um luar vago, occulto, mudo, cheio de nada como a vida...