Receção Crítica - Usa Jacinto do Prado Coelho(172)

Depois que os ultimos pingos


L. do D.

25-XII-1929

Depois que os ultimos pingos da chuva começaram a tardar na queda dos telhados, e pelo centro pedrado da rua o azul do ceu começou a espelhar-se lentamente, o som dos vehiculos tomou outro canto, mais alto e alegre, e ouviu-se o abrir de janellas contra o desesquecimento do sol. Então, pela rua estreita, do fundo da esquina proxima, rompeu o convite alto do primeiro cauteleiro, e os pregos pregados nos caixotes da loja fronteira reverberaram pelo espaço claro.

Era um feriado incerto, legal e que se não mantinha. Havia socego e trabalho conjunctos, e eu não tinha que fazer. Tinha-me levantado cedo e tardava em preparar-me para existir. Passeava de um lado ao outro do quarto e sonhava alto coisas sem nexo nem possibilidade — gestos que me esquecera de fazer, ambições impossiveis realizadas sem rumo, conversas firmes e continuas que, se fôssem, teriam sido. E neste devaneio sem grandeza nem calma, neste atardar sem esperança nem fim, gastavam meus passos a manhã livre, e as minhas palavras altas, ditas baixo, soavam multiplas no claustro / do meu simples isolamento./

A minha figura humana, se a considerava com uma attenção externa, era do ridiculo que tudo quanto é humano assume sempre que é intimo. Vestira, sobre os trajes simples do somno abandonado, um sobretudo velho, que me serve para estas vigilias matutinas. Os meus chinellos velhos estavam rotos, principalmente o do pé esquerdo. E, com as mãos nos bolsos do casaco posthumo, eu fazia a avenida do meu quarto curto em passos largos e decididos, cumprindo com o devaneio inutil um sonho egual aos de toda a gente.

Ainda, pela frescura aberta da minha janella unica, se ouviam cahir dos telhados os pingos grossos da accumulação da chuva ida. Ainda, vagos, havia frescores de haver chovido. O céu, porém, era de um azul conquistador, e as nuvens que restavam da chuva derrotada ou cansada, cediam, retirando para sobre os lados do Castello, os caminhos legitimos do céu todo.

Era a occasião de estar alegre. Mas pesava-me qualquer coisa, uma ansia desconhecida, um desejo sem definição, nem até réles. Tardava-me, talvez, a sensação de estar vivo. E, quando me debrucei da janella altissima, sobre a rua para onde olhei sem vel-a, senti-me de repente um d'aquelles trapos humidos de limpar coisas sujas, que se levam para a janella para seccar, mas se esquecem, enrodilhados, no parapeito que mancham lentamente.