Receção Crítica - Usa Jacinto do Prado Coelho(156)

Há momentos em que tudo cansa


L. do D.

12-6-1930

Há momentos em que tudo cansa, até o que nos repousaria. O que nos cansa porque nos cansa; o que nos repousaria porque a idéa de o obter nos cansa. Ha abatimentos da alma abaixo de toda a angustia e de toda a dor; creio que os não conhecem senão os que se furtam ás angustias e ás dores humanas, e teem diplomacia comsigo mesmos para se esquivar ao proprio tedio. Reduzindo-se, assim, a seres couraçados contra o mundo, não admira que, em certa altura da sua consciência de si-mesmos, lhes pese de repente o vulto inteiro da couraça, e a vida lhes seja uma angustia ás avessas, uma dor perdida.

Estou em um d'esses momentos, e escrevo estas linhas como quem quer ao menos saber que vive. Todo o dia, até agora, trabalhei como um somnolento, fazendo contas por processos de sonho, escrevendo ao longo do meu torpor. Todo o dia me senti pesar a vida sobre os olhos e contra as temporas — somno nos olhos, pressão para fóra nas temporas, consciência de tudo isto no estomago, nausea e desalento.

Viver parece-me um erro metaphysico da matéria, um descuido da inacção. Nem olho o dia, para ver o que elle tem que me distraia de mim, e, escrevendo-o eu aqui em descripção, tape com palavras a chicara vazia do meu não me querer. Nem olho o dia, e ignoro com as costas dobradas se é sol ou falta de sol o que está lá fóra na rua subjectivamente triste, na rua deserta onde está passando o som de gente. Ignoro tudo e doe-me o peito. Parei de trabalhar e não quero mexer-me de aqui. Estou olhando para o mata-borrão branco sujo, que alastra, pregado aos cantos, por sobre a grande edade da secretaria inclinada. Fito attentamente os rabiscos de absorpção e distracção que estão borrados nelle. Varias vezes a minha assignatura às avessas e ao invez. Alguns numeros aqui e alli, assim mesmo. Uns desenhos de nada, feitos pela minha desattenção. Olho a tudo isto como um aldeão de mata-borrões, com uma attenção de quem olha novidades, com todo o cerebro inerte por traz dos centros cerebraes que promovem a visão.

Tenho mais somno intimo do que cabe em mim. E não quero nada, não prefiro nada, não há nada a que fugir.