Receção Crítica - Usa Jacinto do Prado Coelho(84)

Ha quanto tempo não escrevo!


L. do D.

31-3-1934

Ha quanto tempo não escrevo! Passei, em dias, seculos de renuncia incerta. Estagnei, como um lago deserto, entre paisagens que não ha.

No entretanto, corria-me bem a monotonia variada dos dias, a sucessão nunca egual das horas eguaes, a vida. Corria-me bem. Se dormisse, não me correria de outro modo. Estagnei, como um lago que não ha, entre paisagens desertas.

É frequente o desconhecer-me — o que succede com frequencia aos que se conhecem... Assisto a mim nos varios disfarces com que sou vivo. Possuo de quanto muda o que é sempre o mesmo, de quanto se faz tudo o que é nada.

Relembro, longinquo em mim, como se viajara para dentro, a monotonia, todavia tam differente, d'aquella casa de provincia... Alli passei a infancia, mas não saberia dizer, se quizesse fazel-o, se com mais ou menos felicidade do que passo a vida de hoje. Era outro o quem sou que alli vivia: são vidas differentes, diversas, incomparaveis. As mesmas monotonias, que as approximam por fóra, eram sem duvida differentes por dentro. Não eram duas monotonias, mas duas vidas.

A que proposito relembro?

O cansaço. Lembrar é um repouso, porque é não agir. Que de vezes, para maior descanso, relembro o que nunca foi, e não ha nitidez nem saudade nas minhas memorias das provincias[?] onde estive como os que moram, taboa a taboa do soalho, oscillo o oscillo de outras, nas vastas sallas onde nunca morei.

De tal modo me converti na ficção de mim mesmo que qualquer sentimento natural, que eu tenha, desde logo, desde que nasce, se me transtorna num sentimento da imaginação — a memoria em sonho, o sonho em esquecer-me d'elle, o conhecer-me em não pensar em mim.

De tal modo me desvesti do meu proprio ser, que existir é vestir-me. Só disfarçado é que sou eu. E, em torno de mim, todos poentes incognitos douram, morrendo, as paisagens que nunca verei.