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Sou curioso de todos, ávido de tudo


Sou curioso de todos, ávido de tudo, voraz da ideia de todas. Pesa-me como a perda de ☐ a noção que tudo não pode ser visto, nem tudo lido, nem tudo pensado...

Mas não vejo atentamente, nem leio com importância, nem penso com prosseguimento. Em tudo sou um diletante intenso e fruste. A minha alma é fraca de mais para ter sequer a força do seu próprio entusiasmo. Sou feito das ruínas do inacabado, e é uma paisagem de desistências a que definiria o meu ser.

A minha alma é fraca de mais para ter sequer a força do seu próprio entusiasmo. Sou feito das ruínas do inacabado, e é uma paisagem de desistências a que definiria o meu ser.

Divago, se me concentro; tudo em mim é decorativo e incerto, como um espectáculo na bruma.

Que D. Sebastião venha pelo nevoeiro não desdiz da história. Toda a história vai e vem entre névoas, e as maiores batalhas de que se narram, as maiores pompas, os mais largos conseguimentos não são mais que espectáculos na bruma, cortejos na distância do crepúsculo e do apagamento.

A alma em mim é expressiva e material. Ou estagno num não-ser de linho sensível, ou acordo, e se acordo projecto-me em palavras como se essas fossem o abrir de olhos do meu ser. Se penso, o pensamento surge-me no próprio espírito com frases, secas e ritmadas, e eu não distingo nunca bem se penso antes de o dizer, se apenas depois de me ver a tê-lo dito. Se dou por mim sonhando, há palavras logo em mim. Em mim toda emoção é uma imagem, e todo sonho uma pintura musicada. O que escrevo pode ser mau, mas é mais eu que o que penso. Assim por vezes o acredito...

Desde que vivo, narro-me, e o mais pequeno dos meus tédios comigo, se me debruço sobre ele, desabrocha, por um magnetismo de ☐, em flores de cores de musicais abismos.

Esta tendência carnal para converter todo pensamento em expressão, ou, antes, pensar como expressão todo pensamento; de ver toda a emoção em cor e forma, e até toda negação em ritmo, ☐

Escrevo com uma grande intensidade de expressão; o que sinto nem sei o que é. Sou metade sonâmbulo e a outra parte nada.

A mulher que sou quando me conheço.

O ópio dos crepúsculos régios, e a maravilha deitada às escuras, à mão que se desenrosca dos farrapos.

Às vezes é tão grande, tão rápida, tão abundante a fluência concentrada de imagens e de frases certas que se me desenrolam no espírito desatento, que raivo, estorço-me, choro de ter que as perder — porque as perco. Cada uma teve o seu momento, e não pode ser lembrada fora dele. E fica-me, como a um amoroso a saudade de um rosto amável entrevisto e não fixado, a memória do meu ser como de mortos, o debruçar-me sobre o abismo de um passado rápido de imagens e ideias, figuras mortas da bruma de que elas mesmas se formaram.

Fluido, ausente, inessencial, perco-me de mim como se me afogasse em nada; sou transacto, e esta palavra, que fala e pára, diz, tem, tudo.

O ritmo da palavra, a imagem que evoca, e o seu sentido como ideia, juntos necessariamente em qualquer palavra, são para mim juntos como separação. Só de pensar uma palavra eu compreenderia o conceito de Trindade. Penso a palavra "inúmero", e escolho-a para exemplo porque é abstracta e escusa. Mas se a oiço no meu ser, rolam grandes ondas com sons que não param no mar sem fim; constelam-se em céus, e não é de estrelas, mas da música de todas as ondas que os sons se constelam, e a ideia de um infinito decorrente abre-se-me, como uma bandeira desfraldada, em estrelas com sons do mar, e a um mar que reflecte todas as estrelas.