Jacinto do Prado Coelho

Sempre neste mundo haverá a lucta



Sempre neste mundo haverá a lucta, sem decisão nem victoria, entre o que ama o que não ha porque existe, e o que ama o que ha porque não existe. Sempre, sempre, haverá o abysmo entre o que renega o mortal porque é mortal, e o que ama o mortal porque desejaria que elle nunca morresse. Vejo-me aquelle que fui na infancia, naquelle momento em que o meu barco dado se virou no tanque da quinta, e não ha philosophias que substituam esse momento, nem razões que me expliquem porque passou. Lembro-o, e vivo; que vida melhor tens tu para me dar?

— Nenhuma, nenhuma, porque tambem eu lembro.

Ah, lembro-me bem! Era na casa velha da quinta antiga e ao serão; depois de coserem e fazerem meia, o chá vinha, e as torradas, e o somno bom que eu haveria de dormir. Dá-me isto outra vez, tal qual era, com o relogio a tictacar ao fundo, e guarda para ti os Deuses todos. Que me é um Olympo que me não sabe às torradas do passado? Que tenho eu com deuses que não teem o meu relogio antigo?

Talvez tudo seja symbolo e sombra, mas não gosto de symbolos e não gosto de sombras. Restitue-me o passado e guarda a verdade. Dá-me outra vez a infancia e leva Deus contigo.

— Os teus symbolos! Se eu chorar na noite, como uma creança com medo, nenhum dos teus symbolos me vem afagar no hombro e emballar por alli até que eu durma. Se eu me perder na estrada, tu não tens Virgem Maria melhor que me venha buscar pela mão. Tenho frio das tuas transcendencias. Quero um lar no Além. Julgas que alguem tem sêde na alma de metaphysicas ou de mysterios ou de altas verdades?

— De que é que se tem sede nessa alma?

— De qualquer coisa como tudo que foi a nossa infancia. Dos brinquedos mortos, das tias velhas idas. Essas coisas é que são a realidade, embora morressem. Que tem o Ineffavel commigo?

— Uma coisa... Tiveste algumas tias velhas, e alguma quinta antiga e algum chá e algum relogio?

— Não tive. Gostaria de ter tido. E tu viveste à beira-mar?

— Nunca. Não o sabias?

— Sabia, mas acreditava. Para que descrer do que só se suppõe?

Não sabes que este é um dialogo no jardim do Palacio, um interludio lunar, uma função em que nos entretemos enquanto as horas passam para os outros?

— Pois sim, mas eu estou a raciocinar...

— Está bem: eu não estou. O raciocinio é a peor especie de sonho, porque é aquelle que nos transporta para o sonho a regularidade da vida que não há, isto é, é duplamente nada.

— Mas o que quere isso dizer?

(Pondo-lhe a mão no outro hombro, e envolvendo-o num abraço.) — Ó filho, o que quer qualquer coisa dizer?

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