Jacinto do Prado Coelho

Socégo enfim



L. do D.

5-6-1934

Socégo enfim. Tudo quanto foi vestigio e desperdicio some-se-me da alma como se não fôra nunca. Fico só e calmo. A hora que passo é como aquella em que me convertesse a uma religão. Nada porém me attrahe para o alto, ainda que nada já me attraia para baixo. Sinto-me livre, como se deixasse de exisitir, conservando a consciência d'isso.

Socégo, sim, socégo. Uma grande calma, suave como uma inutilidade, desce em mim ao fundo do meu ser. As paginas lidas, os deveres cumpridos, os passos e os acasos de viver — tudo isso se me tornou numa vaga penumbra, num hallo mal visivel, que cerca qualquer coisa tranquilla que não sei o que é. O exforço, em que puz, uma ou outra vez, o esquecimento da alma; o pensamento, em que puz, uma vez ou outra, o esquecimento da acção — ambos se me volvem numa espécie de ternura sem sentimento, de compaixão fruste e vazia.

Não é o dia lento e suave, nublado e brando. Não é a aragem imperfeita, quasi nada, pouco mais do que o ar que já se sente. Não é a côr anonyma do céu aqui e alli azul, frouxamente. Não. Não, porque não sinto. Vejo sem intenção nem remedio. Assisto attento a espectaculo nenhum. Não sinto alma, mas socego. As coisas externas, que estão nitidas e paradas, ainda as que se movem, são para mim como para o Christo seria o mundo, quando, da altura de tudo, Satan o tentou. São nada, e comprehendo que o Christo se não tentasse. São nada, e não comprehendo como Satan, velho de tanta sciencia, julgasse que com isso tentaria.

Corre leve, vida que se não sente, riacho em silencio mobil sob arvores esquecidas! Corre branda, alma que se não conhece, murmurio que se não vê para além de grandes ramos cahidos! Corre inutil, corre sem razão, consciencia que o não é de nada, vago brilho ao longe, entre clareiras de folhas, que não se sabe onde vém nem onde vae! Corre, corre, e deixa-me esquecer!

Vago sopro do que não ousou viver, hausto fruste do que não pôde sentir, murmurio inutil do que não quiz pensar, vae lento, vae frouxo, vae em torvelinhos que tens que ter e em declives que te dão, vae para a sombra ou para a luz, irmão do mundo, vae para a gloria ou para o abysmo, filho do Chaos e da Noite, lembrado ainda, em qualquer recanto teu, de que os Deuses vieram depois, e de que os Deuses passam também.

Teresa Sobral Cunha

Richard Zenith

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