A vida faz de nós sempre


A vida faz de nós sempre aquilo que nós não queremos. Todos os destinos são absurdos — e saem todos certos no fim. Por isso o maior dos horrores é poder ver o nosso próprio futuro.

Sim... O futuro, bom ou mau, é sempre horrível porque é sempre disforme. Não se ajusta nunca à nossa personalidade...

A um, que se deleita sobretudo com a quietação, dá o destino, tantas vezes, as viagens como linha de vida; a outro, que só anseia as distâncias, prende-o a sorte eternamente aos quatros muros da sua casa e às sete ruas da sua vila. E no fim, olhando para trás, tudo é como devia ser, porque não podia ser de outra maneira. Só olhando para trás é que se encontra lógica nas coisas.

Mais valera árvore num campo novo que a sua sombra absolutamente amoral e antimetafísica... Um dia de sol, uma hora de sesta, o verde das folhas — quanto tudo isto cura, quando o sentimos da índole interrogativa do homem! Sim, mais nos valera uma calma certa, um tronco rugoso na superfície da alma... qualquer coisa que obrigasse o tempo a não se deixar sentir.

Eu sou um excitado pela interrogação do futuro. Consulto tudo para saber o que serei, mas, afinal, a única coisa que colho de agradável é não saber ao certo se serei vivo por um mês[?].


Título: A vida faz de nós sempre
Heterónimo: Vicente Guedes
Número: 192
Página: 181
Nota: [138A-40, ms.];
Nota: Apenas Teresa Sobral Cunha inclui este texto no corpus do "Livro do Desassossego".
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