Receção Crítica - Usa Jacinto do Prado Coelho(54)

Depois que as ultimas chuvas


L. do D.

Depois que as ultimas chuvas passaram para o sul, e só ficou o vento que as varreu, regressou aos montões da cidade a alegria do sol certo e appareceu muita roupa branca pendurada a saltar nas cordas esticadas por paus medios nas janellas altas dos predios de todas as côres.

Tambem fiquei contente, porque existo. Sahi de casa para um grande fim, que era, afinal, chegar a horas ao escriptorio. Mas, neste dia, a propria compulsão da vida participava d'aquella outra boa compulsão que faz o sol vir nas horas do almanak, conforme a latitude e a longitude dos logares da terra. Senti-me feliz por não poder sentir-me infeliz. Desci a rua descansadamente, cheio de certeza, porque, emfim, o escriptorio conhecido, a gente conhecida nelle, eram certezas. Não admira que me sentisse livre, sem saber de quê. Nos cestos poisados à beira dos passeios da Rua da Prata as bananas de vender, sob o sol, eram de um amarello grande.

Contento-me, afinal, com muito pouco: o ter cessado a chuva, o haver um sol bom neste Sul feliz, bananas mais amarellas por terem nodoas negras, a gente que as vende porque falla, os passeios da Rua da Prata, o Tejo ao fundo, azul esverdeado a ouro, todo este recanto domestico do systema do Universo.

Virá o dia em que não veja isto mais, em que me sobreviverão as bananas da orla do passeio, e as vozes das vendedeiras solertes, e os jornaes do dia que o pequeno estendeu lado a lado na esquina do outro passeio da rua. Bem sei que as bananas serão outras, e que as vendedeiras serão outras, e que os jornaes terão, a quem se baixar para vel-os, uma data que não é a de hoje. Mas elles, porque não vivem, duram ainda que outros; eu, porque vivo, passo ainda que o mesmo.

Esta hora poderia eu bem solemniza-la comprando bananas, pois me parece que nestas se projectou todo o sol do dia como um holophote sem machina. Mas tenho vergonha dos rituaes, dos symbolos, de comprar coisas na rua. Podiam não me embrulhar bem as bananas, não m'as vender como devem ser vendidas por eu as não saber comprar como devem ser compradas. Podiam extranhar a minha voz ao perguntar o preço. Mais vale escrever do que ousar viver, ainda que viver não seja mais que comprar bananas ao sol, emquanto o sol dura e ha bananas que vender.

Mais tarde, talvez... Sim, mais tarde... Um outro, talvez... Não sei...