Receção Crítica - Usa Jacinto do Prado Coelho(382)

Nada pesa tanto como o affecto alheio


L. do D.
15-5-1932

Nada pesa tanto como o affecto alheio — nem o odio alheio, pois que o odio é mais intermittente que o affecto; sendo uma emoção desagradavel, tende, por instincto de quem a tem, a ser menos frequente. Mas, tanto o odio como o amor nos opprime; ambos nos buscam e procuram, nos não deixam (sós).

O meu ideal seria viver tudo em romance, repousando na vida — lêr as minhas emoções, viver o meu desprezo d'ellas. Para quem tenha a imaginação à flor da pelle, as aventuras de um protagonista de romance são emoção propria bastante, e mais, poisque são d'elle e nossas. Não ha grande aventura como ter amado Lady Macbeth, com amor verdadeiro e directo; que tem que fazer que[m] assim amou senão, por descanso, não amar nesta vida ninguem?

Não sei que sentido tem esta viagem que fui forçado a fazer, entre uma noite e outra noite, na companhia do universo inteiro. Sei que posso ler para me distrahir. Considero a leitura como o modo mais simples de entreter esta, como outra, viagem; e, de vez em quando, ergo os olhos do livro onde estou sentindo verdadeiramente, e vejo, como estrangeiro, a paisagem que foge — campos, cidades, homens e mulheres, affeições e saudades — e tudo isso não é mais para mim do que um episodio do meu repouso, uma distracção inerte em que descanso os olhos das paginas demasiado lidas.

Só o que sonhamos é o que verdadeiramente somos, porque o mais, por estar realizado, pertence ao mundo e a toda a gente. Se realizasse algum sonho, teria ciumes d'elle, pois me haveria trahido com o ter-se deixado realizar. Realizei tudo quanto quiz, diz o debil, e é mentira; a verdade é que sonhou propheticamente tudo quanto a vida realizou d'elle. Nada realizamos. A vida atira-nos como uma pedra, e nós vamos dizendo no ar "Aqui me vou mexendo ".

Seja o que fôr este interludio mimado sob o projector do sol e as lantejoulas das estrellas, não faz mal decerto saber que elle é um interludio; se o que está para além das portas do theatro é a vida, viveremos; se é a morte, morreremos, e a peça nada tem com isso.

Porisso nunca me sinto tam proximo da verdade, tam sensivelmente iniciado, como quando nas raras vezes que vou ao theatro ou ao circo: sei então que enfim estou assistindo à perfeita figuração da vida. E os actores e as actrizes, os palhaços e os prestidigitadores são coisas importantes e futeis, como o sol e a lua, o amor e a morte, a peste, a fome, a guerra, na humanidade. Tudo é theatro. Ah, quero a verdade? Vou continuar o romance...