Receção Crítica - Usa Jacinto do Prado Coelho(434)

Atraz dos primeiros menos-calores


14-9-1931
L. do D.

Atraz dos primeiros menos-calores do estio findo vieram, nos acasos das tardes, certos coloridos mais brandos do ceu amplo, certos retoques de brisa fria que annunciavam o outomno. Não era ainda o desverde da folhagem, ou o desprenderem-se das folhas, nem aquella vaga angustia que acompanha a nossa sensação da morte externa, porque o ha de ser tambem a nossa. Era como um cansaço do exforço existente, um vago somno sobrevindo aos ultimos gestos de agir. Ah, são tardes de uma tam maguada indifferença, que, antes que comece nas coisas, começa em nós o outomno.

Cada outomno que vem é mais perto do ultimo outomno que teremos, e o mesmo é verdade do verão ou do estio; mas o outomno lembra, por o que é, o acabamento de tudo, e no verão ou no estio é fácil, de olhar, que o esqueçamos. Não é ainda o outomno, não está ainda no ar o amarello das folhas cahidas ou a tristeza humida do tempo que vae ser inverno mais tarde. Mas ha um resquicio de tristeza anticipada, uma magua vestida para a viagem, no sentimento em que somos vagamente attentos à diffusão colorida das coisas, ao outro tom do vento, ao socego mais velho que se alastra, se a noite cahe, pela presença inevitavel do universo.

Sim, passaremos todos, passaremos tudo. Nada ficará do que usou sentimentos e luvas, do que fallou da morte e da politica local. Como é a mesma luz que illumina as faces dos santos e as polainas dos transeuntes, assim será a mesma falta de luz que deixará no escuro o nada que ficar de uns terem sido santos e outros usadores de polainas. No vasto redemoinho, como o das folhas seccas, em que jaz indolentemente o mundo inteiro, tanto faz os reinos como os vestidos das costureiras, e as tranças das creanças louras vão no mesmo giro mortal que os sceptros que figuraram imperios. Tudo é nada, e no atrio do Invisivel, cuja porta aberta mostra apenas, defronte, uma porta fechada, bailam, servas desse vento que as remexe sem mãos, todas as coisas, pequenas e grandes, que formaram, para nós e em nós, o systema sentido do universo. Tudo é sombra e pó mexido, nem ha voz senão a do som que faz o que vento ergue e arrasta, nem silencio senão do que o vento deixa. Uns, folhas leves, menos presas de terra por mais leves, vão altas do redopio do Atrio e cahem mais longe que o circulo dos pesados. Outros, invisiveis quasi, pó egual, differente só se o vissemos de perto, faz cama a si mesmo no redemoinho. Outros ainda, miniaturas de troncos, são arrastados á roda e cessam aqui e alli. Um dia, no fim do conhecimento das coisas, abrir-se-ha a porta do fundo, e tudo o que fomos — lixo de estrellas e de almas — será varrido para fóra da casa, para que o que há recomece.

Meu coração doe-me como um corpo extranho. Meu cerebro dorme tudo quanto sinto. Sim, é o principio do outomno que traz ao ar e á minha alma aquella luz sem sorriso que vae orlando de amarello morto o arredondamento confuso das poucas nuvens do poente. Sim, é o principio do outomno, e o conhecimento claro, na hora limpida, da insufficiencia anonyma de tudo. O outomno, sim, o outomno, o que ha ou o que vae haver, e o cansaço anticipado de todos os gestos, a desillusão anticipada de todos os sonhos. Que posso eu esperar e de quê? Já, no que penso de mim, vou entre as folhas e os pós do atrio, na orbita sem sentido de coisa nenhuma, fazendo som de vida nas lages limpas que um sol angular doura de fim não sei onde.

Tudo quanto pensei, tudo quanto sonhei, tudo quanto fiz ou não fiz — tudo isso irá no outomno, como os phosphoros gastos que juncam o chão em diversos sentidos, ou os papeis amarrotados em bolas falsas, ou os grandes imperios, as religiões todas, as philosophias com que brincaram, fazendo-as, as creanças somnolentas do abysmo. Tudo quanto foi minha alma, desde tudo a que aspirei á casa vulgar em que moro, desde os deuses que tive ao patrão Vasques que tambem tive, tudo vae no outomno, tudo no outomno, na ternura indifferente do outomno. Tudo no outomno, sim, tudo no outomno...