Receção Crítica - Usa Jacinto do Prado Coelho(192)

Nasci em um tempo


L. do D.

29-3-1930
(trecho inicial)

Nasci em um tempo em que a maioria dos jovens haviam perdido a crença em Deus, pela mesma razão que os seus maiores a haviam tido — sem saber porquê. E então, porque o espirito humano tende naturalmente para criticar porque sente, e não porque pensa, a maioria d'esses jovens escolheu a Humanidade para succedaneo de Deus. Pertenço, porém, aquella especie de homens que estão sempre na margem d'aquillo a que pertencem, nem veem só a multidão de que são, senão tambem os grandes espaços que ha ao lado. Porisso nem abandonei Deus tam amplamente como elles, nem acceitei nunca a Humanidade. Considerei que Deus, sendo improvavel, poderia ser; podendo pois dever ser adorado; mas que a Humanidade, sendo uma mera idéa biológica, e não significando mais que a especie animal humana, não era mais digna de adoração do que qualquer outra especie animal. Este culto da Humanidade, com seus ritos de Liberdade e Egualdade, pareceu-me sempre uma reviviscencia dos cultos antigos, em que animaes eram como deuses, ou os deuses tinham cabeças de animaes.

Assim, não sabendo crer em Deus, e não podendo crer numa somma de animaes, fiquei, como outros da orla das gentes, naquella distancia de tudo a que commummente se chama a Decadencia. A Decadencia é a perda total da inconsciencia; porque a inconsciencia é o fundamento da vida. O coração, se pudesse pensar, pararia.

A quem, como eu, assim, vivendo não sabe ter vida, que resta senão, como a meus poucos pares, a renuncia por modo e a contemplação por destino? Não sabendo o que é a vida religiosa, nem podendo sabel-o, porque se não tem fé com a razão; não podendo ter fé na abstracção do homem, nem sabendo mesmo que fazer d'ella perante nós, ficava-nos, como motivo de ter alma a contemplação esthetica da vida. E, assim, alheios á solemnidade de todos os mundos, indifferentes ao divino e desprezadores do humano, entregamo-nos futilmente á sensação sem proposito, cultivada num epicurismo subtilizado, como convém aos nossos nervos cerebraes.

Retendo, da sciencia, sómente aquelle seu preceito central, de que tudo é sujeito a leis fataes, contra as quaes se não reage independentemente, por que reagir é ellas terem feito que reagissemos; e verificando como esse preceito se ajusta ao outro, mais antigo, da divina fatalidade das coisas, abdicamos do exforço como os debeis do entretimento dos athletas, e curvamo-nos sobre o livro das sensações com um grande escrupulo de erudição sentida.

Não tomando nada a serio, nem considerando que nos fôsse dada, por certa, outra realidade que não as nossas sensações, nellas nos abrigamos, e a ellas exploramos como a grandes paizes desconhecidos. E, se nos empregamos assiduamente, não só na contemplação esthetica, mas tambem na expressão dos seus modos e resultados, é que a prosa ou o verso que escrevemos, destituidos de vontade de querer convencer o alheio entendimento ou mover a alheia vontade, é apenas como o fallar alto de quem lê, feito para dar plena objectividade ao prazer subjectivo da leitura.

Sabemos bem que toda a obra tem que ser imperfeita, e que a menos segura das nossas contemplações estheticas será a de aquillo que escrevemos. Mas imperfeito é tudo, nem ha poente tam bello que o não pudesse ser mais, ou brisa leve que nos dê somno que não pudesse dar-nos um somno mais calmo ainda. E assim, contempladores eguaes das montanhas e das estatuas, gosando os dias como os livros, sonhando tudo, sobretudo, para o converter na nossa intima substancia, faremos tambem descripções e analyses, que, uma vez feitas, passarão a ser coisas alheias, que podemos gosar como se viessem na tarde.

Não é este o conceito dos pessimistas, como aquelle de Vigny, para quem a vida é uma cadeia, onde elle tecia palha para se distrahir. Ser pessimista é tomar qualquer coisa como tragico, e essa attitude é um exaggero e um incommodo. Não temos, é certo, um conceito de valia que appliquemos á obra que produzimos. Produzimol-a, é certo, para nos distrahir, porém não como o preso que tece a palha, para se distrahir do Destino, senão da menina que borda almofadas, para se distrahir, sem mais nada.

Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligencia do abysmo. Não sei onde ella me levará, porque não sei nada. Poderia considerar esta estalagem uma prisão, porque estou comppellido a aguardar nella; poderia consideral-a um lugar de sociaveis, porque aqui me encontro com outros. Não sou, porém, nem impaciente nem commum. Deixo ao que são os que se fecham no quarto, deitados molles na cama onde esperam sem somno; deixo ao que fazem os que conversam nas salas, de onde as musicas e as vozes chegam commodas até mim. Sento-me á porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero.

Para todos nós descerá a noite e chegará a diligencia. Goso a brisa que me dão e a alma que me deram para gosal-a, e não interrogo mais nem procuro. Se o que deixar escripto no livro dos viajantes puder, relido um dia por outros, entretel-os tambem na passagem, será bem. Se não o lerem, nem se entretiverem, será bem tambem.