Receção Crítica - Usa Jacinto do Prado Coelho(374)

Segunda parte | Em mim o que há de primordial


L. do D.

Segunda parte

Em mim o que há de primordial é o habito e o geito de sonhar. As circunstâncias da minha vida, desde creança sósinho e calmo, outra[s] forças talvez, amoldando-me de longe, por hereditariedades obscuras a seu sinistro corte, fizeram do meu espirito uma constante corrente de devaneios. Tudo o que eu sou está n'isto, e mesmo aquillo que em mim mais parece longe de destacar o sonhador, pertence sem escrupulo à alma de quem só sonha, elevada ella ao seu maior grau.

Quero, para meu proprio gosto de analysar-me, ir, à medida que a isso me ageite, ir pondo em palavras os processos mentaes que em mim são um só, esse, o de uma vida devotada ao sonho, de uma alma educada só em sonhar.

Vendo-me de fóra, como quasi sempre me vejo, eu sou um inapto à acção, perturbado ante ter que dar passos e fazer gestos, inhabil para fallar com os outros, sem lucidez interior para me entreter com o que me cause esforço ao espirito, nem sequencia physica para me aplicar a qualquér mero mechanismo de entretenimento trabalhando.

Isso é natural que eu seja. O sonhador entende-se que seja assim. Toda a realidade me perturba. A falla dos outros lança-me numa angústia enorme. A realidade das outras almas surprehende-me constantemente. A vasta rêde de inconsciencias que é toda a acção que eu vejo parece-me uma illusão absurda, sem coherencia plausível, nada.

Mas se se julgar que desconheço os tramites da psychologia alheia, que erro a percepção nitida dos motivos e dos intimos pensamentos dos outros, haverá engano sobre o que sou.

Porque eu não só sou um sonhador, mas sou um sonhador exclusivamente. O habito unico de sonhar deu-me uma extraordinaria nitidez de visão interior. Não só vejo com espantoso e às vezes perturbante relevo as figuras e os décors dos meus sonhos, mas com egual relevo vejo as minhas idéas abstractas, os meus sentimentos humanos — o que delles me resta —, os meus secretos impulsos, as minhas attitudes psychicas deante de mim próprio. Affirmo que as minhas proprias idéas abstractas, eu as vejo em mim, eu com uma interior visão real as vejo num espaço interno. E assim os seus meandros são me visiveis nos seus minimos.

Porisso, conheço-me inteiramente, e, atravez de conhecer-me inteiramente, conheço inteiramente a humanidade toda. Não ha baixo impulso, como não ha nobre intuito que me não tenha sido relampago na alma; e eu sei com que gestos cada um se mostra. Sob as mascaras que as más idéas usam, de boas ou indifferentes, mesmo dentro de nós eu pelos gestos as conheço por quem são. Sei o que em nós se esforça por nos illudir. E assim à maioria das pessoas que vejo conheço melhor do que elles a si proprios. Applico-me muitas vezes a sondal-os, porque assim os torno meus. Conquisto o psychismo que explico, porque para mim sonhar é possuir. E assim se vê como é natural que eu, sonhador que sou, seja o analytico que me reconheço.

Entre as poucas cousas que às vezes me apraz lêr, destaco, porisso, as peças de theatro. Todos os dias se passam peças em mim, e eu conheço a fundo como é que se projecta uma alma na projecção do Mercator, plenamente. Entretenho-me pouco, aliás, com isto; tão constantes, vulgares e enormes são os erros dos dramaturgos. Nunca nenhum drama me contentou. Conhecendo a psychologia humana com uma nitidez de relampago, que sonda todos os recantos com um só olhar, a grosseira analyse e construcção dos dramatistas fere-me, e o pouco que leio neste genero desgosta-me como um borrão de tinta atravessado na escripta.

As cousas são a materia para os meus sonhos; por isso applico uma atenção distrahidamente sobreattenta a certos detalhes do Exterior.

Para dar relevo aos meus sonhos preciso conhecer como é que as paysagens reaes e as personagens da vida nos aparecem relêvadas. Porque a visão do sonhador não é como a visão do que vê as cousas. No sonho, não ha o assentar da vista sobre o importante e o inimportante de um objecto que há na realidade. Só o importante é que o sonhador vê. A realidade verdadeira dum objecto é apenas parte delle; o resto é o pesado tributo que elle paga à materia em troca de existir no espaço. Semelhantemente, não há no espaço realidade para certos phenomenos que no sonho são palpavelmente reaes. Um poente real é imponderável e transitorio. Um poente de sonho é fixo e eterno. Quem sabe escrever é o que sabe vêr os seus sonhos nitidamente (e é assim) ou ver em sonho a vida, vêr a vida immaterialmente, tirando-lhe photographias com a machina do devaneio, sobre a qual os raios do pesado, do util e do circumscripto não teem acção, dando negro na chapa espiritual.

Em mim esta atitude, que o muito sonhar me enkystou, faz-me vêr sempre da realidade a parte que é sonho. A minha visão das cousas supprime sempre nellas o que o meu sonho não pode utilizar. E assim vivo sempre em sonhos, mesmo quando vivo na vida. Olhar para um poente em mim ou para um poente no Exterior é para mim a mesma cousa, porque vejo da mesma maneira, pois que a minha visão é talhada mesmamente.

Porisso a idéa que faço de mim é uma idéa, que a muitos parecerá errada. De certo modo é errada. Mas eu sonho-me a mim próprio e de mim escolho o que é sonhável, compondo-me e recompondo-me de todas as maneiras até estar bem perante o que exijo do que sou e não sou. Às vezes o melhor modo de vêr um objecto é annulal-o mas elle subsiste, não sei explicar como, feito de matéria de negação e anulamento; assim faço a grandes espaços reaes do meu ser, que, supprimidos no meu quadro de mim, me transfiguram para a minha realidade.

Como então me não engano sobre os meus intimos processos de illusão de mim? Porque o processo que arranca para uma realidade mais que real um aspecto do mundo ou uma figura de sonho, arranca também para mais que real uma emoção ou um pensamento; despe-o portanto de todo o apetrecho de nobre ou puro quando o que quasi sempre acontece, o não é. Repare-se que a minha objectividade é absoluta, a mais absoluta de todas. Eu crio o objecto absoluto, com qualidades de absoluto no seu concreto. Eu não fugi à vida propriamente, no sentido de procurar para a minha alma uma cama mais suave, apenas mudei de vida e encontrei nos meus sonhos a mesma objectividade que encontrava na vida. Os meus sonhos — n'outra pagina estudo isto — erguem-se independentes da minha vontade e muitas vezes me chocam e me ferem. Muitas vezes o que descubro em mim me desola, me envergonha (talvez, por um resto de humano em mim — o que é a vergonha?) e me assusta.

Em mim o devaneio ininterrupto substituiu a attenção. Passei a sobrepôr às cousas vistas, mesmo quando já sonhadamente vistas, outros sonhos que commigo trago. Desattento já suficientemente para fazer bem aquillo a que chamei ver as cousas em sonho, ainda assim, porque essa desattenção era motivada por um perpetuo devaneio e uma, também não exaggeradamente attenta, preocupação com o decurso dos meus sonhos, sobreponho o que sonho ao sonho que vejo e intersecciono a realidade já despida da materia com um immaterial absoluto.

D'ahi a habilidade que adquiri em seguir varias idéas ao mesmo tempo, observar as cousas e ao mesmo tempo sonhar assumptos muito diversos, estar ao mesmo tempo sonhando um poente real sobre o Tejo real e uma manhã sonhada sobre um Pacífico interior; e as duas cousas sonhadas intercalam-se uma na outra, sem se misturar, sem propriamente confundir mais do que o estado emotivo diverso que cada um provoca, e sou como alguem que visse passar na rua muita gente e simultaneamente sentisse de dentro as almas de todos — o que teria que fazer n'uma unidade de sensação — ao mesmo tempo que via os varios corpos — esse tinha que os ver diversos — cruzar-se na rua cheia de movimentos de pernas.