Receção Crítica - Usa Jacinto do Prado Coelho(362)

Int[ervallo] Dol[oroso]


L. do D.

Int[ervallo] Dol[oroso]

Nem no orgulho tenho consolação. De quê orgulhar-me se não sou o creador de mim-próprio. E mesmo que haja em mim de que envaidecer-me, quanto para me não envaidecer.

Jazo a minha vida. E nem sei fazer com o sonho o gesto de me erguer, tão até à alma estou despido de saber ter um esforço.

Os fazedores de systemas metaphysicos, os (...) de explicações psychologicas são ainda piores no soffrimento. Systematisar, explicar o que é senão (...) e construir? E tudo isso — arranjar, dispôr, organizar — o que é senão esforço realizado — e quão desoladoramente isso é vida!

Pessimista — eu não o sou. Ditosos os que conseguem traduzir para universal o seu soffrimento. Eu não sei se o mundo é triste ou mau nem isso me importa, porque o que os outros soffrem me é aborrecido e indifferente. Logo que não chorem ou gemam, o que me irrita e incommoda, nem um encolher de hombros tenho — tão fundo me pesa o meu desdem por elles — para o seu soffrimento.

Mas sou [?] quem crê que a vida seja meio luz meio sombras. Eu não sou pessimista. Não me queixo do horror da vida. Queixo-me do horror da minha. O unico facto importante para mim é o facto de eu existir e de eu soffrer e de não poder sequer sonhar-me de todo por fóra de me sentir soffrendo.

Sonhadores felizes são os pessimistas. Formam o mundo à sua imagem e assim sempre conseguem estar em casa. A mim o que me doe mais é a differença entre o ruido e a alegria do mundo e a minha tristeza e o meu silencio aborrecido.

A vida com todas as suas dores e receios e solavancos deve ser boa e alegre, como para uma viagem em velha diligencia para quem vae acompanhado (e o pode vêr [?]).

Nem ao menos posso sentir o meu soffrimento como sinal de Grandeza. Não sei se o é. Mas eu soffro em cousas tão reles, ferem-me cousas tão banaes, que não ouso insultar com essa hypothese a hypothese de que eu possa ter genio.

A gloria de um poente bello, com a sua belleza entristece-me. Ante elles eu digo sempre: como quem é feliz se deve sentir contente ao ver isto!

E este livro é um gemido. Escripto ele já o não é o livro mais triste que há em Portugal.

Ao pé da minha dor todas as outras dores me parecem falsas ou minimas. São dores de gente feliz ou dores de gente que vive e se queixa. As minhas são de quem se encontra encarcerado da vida, aparte...

Entre mim e a vida...

De modo que tudo o que angustia vejo. E tudo o que alegra não sinto. E reparei que o mal mais se vê que se sente, a alegria mais se sente do que se vê. Porque não pensando, não vendo, certo contentamento adquire-se, como o dos mysticos [?] e dos bohemios e dos /canalhas/. Mas tudo afinal entra [em] casa pela janella da observação e pela porta do pensamento.