Amor - Usa Jerónimo Pizarro(369)

Tive sempre uma repugnancia


L. do D.

Tive sempre uma repugnancia quasi physica pelas coisas secretas — intrigas, diplomacia, sociedades secretas, occultismo. Sobretudo me incommodaram sempre estas duas ultimas coisas — a pretensão, que teem certos homens, de que, por entendimentos com Deuses ou Mestres ou Demiurgos, sabem - lá entre elles, exclusos todos nós outros — os grandes segredos que são os caboucos do mundo.

Não posso crer que isso seja assim. Posso crer que alguem o julgue assim. Porque não estará essa gente toda doida, ou illudida? Por serem varios? Mas ha allucinações collectivas.

O que sobretudo me impressiona, nesses mestres e sabedores do invisivel, é que, quando escrevem para nos contar ou suggerir os seus mysterios, escrevem todos mal. Offende-me o entendimento que um homem seja capaz de dominar o Diabo e não seja capaz de dominar a lingua portugueza. Porque ha o commercio com os demonios de ser mais facil que o commercio com a grammatica? Quem, atravez de longos exercicios de attenção e de vontade, consegue, conforme diz, ter visões astraes, porque não póde, com menor dispendio de uma coisa e de outra, ter a visão da syntaxe? Que ha no dogma e ritual da Alta Magia que impida alguem de escrever, já não digo com clareza, pois pode ser que a obscuridade seja da lei occulta, mas ao menos com elegancia e fluidez, pois no proprio abstruso as pode haver? Porque ha de gastar-se toda a energia da alma no estudo da linguagem dos Deuses, e não ha de sobrar um reles bocado, com que se estude a côr e o rhythmo da linguagem dos homens?

Desconfio dos mestres que o não podem ser primarios. São para mim como aquelles poetas estranhos que são incapazes de escrever como os outros. Acceito que sejam estranhos; gostára, porém, que me provassem que o são por superioridade ao normal e não por impotencia d'elle.

Dizem que ha grandes mathematicos que erram addições simples; mas aqui a comparação não é com errar, mas com desconhecer. Acceito que um grande mathematico somme dois e dois para dar cinco: é um acto de distracção, e a todos nós póde succeder. O que não acceito é que não saiba o que é sommar ou como se somma. E é este o caso dos mestres do occulto, na sua formidavel maioria.