Ler o Escrever - Usa LdoD-Arquivo(209)

Quanto mais alto o homem


                                    2/2/1931.

L. do D.

Quanto mais alto o homem, de mais coisas tem
que se privar. No pincaro não ha logar senão para o homem só.
Quanto mais perfeito, mais completo; e quanto mais completo,
menos outrem.

Estas considerações vieram ter commigo depois
de ler num jornal a noticia da grande vida multipla de um
homem celebre. Era um millionario americano, e tinha sido
tudo. Tivera quanto ambicionara — dinheiro, amores, affectos,
dedicações, viagens, collecções. Não é que o dinheiro possa
tudo, mas o grande magnetismo, com que se obtem muito dinheiro,
póde, effectivamente quasi tudo.

Quando depunha o jornal sobre a mesa do café,
já reflectia que o mesmo, na sua esphera, poderia dizer o
caixeiro de praça, mais ou menos meu conhecido, que todos os
dias almoça, como hoje está almoçando, na mesa ao fundo do canto. Tudo quanto o mil-
lionario teve, este homem teve; em menor grau, é certo, mas
para a sua estatura. Os dois homens conseguiram o mesmo,
nem ha differença de celebridade, porque ahi tambem a diffe-
rença de ambientes establece a identidade. Não ha ninguem
no mundo que não conhecesse o nome do millionario americano;
mas não ha ninguem na praça de Lisboa que não conheça o no-
me do homem que está alli almoçando.

Estes homens, afinal, obtiveram tudo quanto
a mão póde attingir, extendendo o braço. Variava nelles o
comprimento do braço; no resto eram eguaes. Não consegui
nunca ter inveja d'esta especie de gente. Achei sempre que
a virtude estava em obter o que se não alcança, em viver
onde se não está, em ser mais vivo depois de morto que quan-
do se está vivo, em conseguir, emfim, qualquer cousa de difficil impossivel,
de absurdo, em vencer, como obstaculos, a propria realidade do mundo.

Se me disserem que é nullo o prazer de durar
depois de não existir, responderei, primeiro, que não sei
se o é ou não, pois não sei a verdade sobre a sobre-
vivencia humana; responderei, depois, que o prazer da fama
futura é um prazer presente — a fama é que é futura. E é um
prazer de orgulho egual a nenhum que qualquer posse material
consiga dar. Póde ser, de facto, illusorio, mas, seja o que fôr,
é mais largo do que o prazer de gosar só o que está aqui.
O millionario americano não póde crer que a posteridade a-
precie os seus poemas, visto que não escreveu nenhuns; o cai-
xeiro de praça não póde suppor que o futuro se deleite
nos seus quadros, visto que nenhuns pintou.

Eu, porém, que na vida transitoria não sou
nada, posso gosar a visão do futuro a ler esta pagina, pois
effectivamente a escrevo; posso orgulhar-me, como de um fi-
lho, da fama que terei, porque, ao menos, tenho com que a ter. E quando penso isto,


erguendo-me da mesa, é com uma intima magestade que a minha
estatura invisivel se ergue acima de Detroit, Michigan, e de
toda a praça de Lisboa.

Reparo, porém, que não foi com estas reflexões que
comecei a reflectir. O que pensei logo foi no pouco que tem
que ser na vida quem tem que sobreviver. Tanto faz uma re-
flexão como a outra, pois são a mesma. A gloria não é uma
medalha, mas uma moeda: de um lado tem a Figura, do outro
uma indicação de valor. Para os valores maiores não
ha moeda: elles são de em papel. e esse valor é sempre pouco.

Com estas psychologias metaphysicas
se consolam os humildes como eu.