Leitura Crítica 1 - Usa (BNP/E3, 2-46r)

Nada me pesa tanto no desgosto


L. do D.

Nada me pesa tanto no desgosto como as pala-
vras sociaes de moral. Já a palavra "dever" é para mim
desagradavel como um intruso. Mas os termos "dever civico",
"solidariedade", "humanitarismo", e outros da mesma estir-
pe, repugnam-me como porcarias que despejassem sobre mim
de janellas. Sinto-me offendido com a supposição, que
alguem porventura faça, de que essas expressões teem que
ver commigo, de que lhes encontro, não só uma valia, mas sequer
um sentido.

Vi ha pouco, em uma montra de loja de brinque-
dos, umas coisas que exactamente me lembraram o que essas
expressões são. Vi, em pratos fingidos, manjares fingidos
para mesas de bonecas. Ao homem que existe, sensual, egois-
ta, vaidoso, amigo dos outros porque tem o dom da falla,
inimigo dos outros porque tem o dom da vida, a esse homem
que ha que offerecer com que brinque ás bonecas com pala-
vras vazias de som e tom?

O governo assenta em duas coisas: refrear e en-
ganar. O mal d'esses termos lantejoulados é que
nem refreiam nem enganam. Embebedam, quando muito, e isso
é outra cousa.

Se alguma coisa odeio, é um reformador.
Um reformador é um homem que vê os
males superficiaes do mundo e se propõe cural-os aggravan-
do os fundamentaes. O medico tenta adaptar o corpo doente
ao corpo são; mas nós não sabemos o que é são ou doente na
vida social.

Não posso considerar a humanidade senão como
uma das ultimas escolas na pintura decorativa da Natureza.
Não distingo, fundamentalmente, um homem de uma arvore; e,
por certo, prefiro o que mais decore, o que mais interésse
os meus olhos pensantes. Se a arvore me interessa mais,
pesa-me mais que cortem a arvore do que o homem morra. Ha
idas de poente que me doem mais que mortes de creanças.
Em tudo sou o que não sente, para que sinta.

Quasi me culpo de estar escrevendo estas meias
reflexões nesta hora em que dos confins da tarde sobe, colo-
rindo-se, uma brisa ligeira. Colorindo-se não, que não é
ella que se colora, mas o ar em que boia incerta; mas, como
me parece que é ella mesma que se colora, é isso que digo,
pois hei porforça de dizer o que me parece, visto que sou
eu.