As cousas nitidas confortam


As cousas nitidas confortam, e as cousas ao sol confortam. Ver passar a vida sob um dia azul compensa-me de muito. Esqueço indefinidamente, esqueço mais do que podia lembrar. O meu coração translucido e aereo penetra-se da sufficiencia das cousas, e olhar basta-me carinhosamente. Nunca eu fui outra cousa que uma visão incorpórea, despida de toda a alma salvo um vago ar que passou e que via.


Título: As cousas nitidas confortam
Heterónimo: Bernardo Soares
Volume: II
Número: 342
Página: 81
Nota: [5-45, ms. pt.];