Receção Crítica 2 - Usa Jerónimo Pizarro(455)

ASPECTOS


"ASPECTOS".
Prefacio geral.

1. Alberto Caeiro (1889-1915) — "O Guardador de Rebanhos" e outros poemas e fragmentos.

2. Ricardo Reis: "Odes".

3. Antonio Mora: "Alberto Caeiro e a renovação do paganismo".

4. Alvaro de Campos: "Arco do Triumpho", Poemas.
5. Vicente Guedes: "Livro do Desasocego".
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A attitude, que deveis tomar para com estes livros publicados, é a de quem não tivesse lido esta explicação e os houvesse lido, tendo-os comprado, um a um, de cima das mesas de uma livraria. Outra não deve ser a condição mental de quem lê. Quando lêdes "Hamlet", não começaes por estabelecer bem no vosso espirito que aquelle enredo nunca foi real. Envenenarieis com isso o vosso proprio prazer, que nessa leitura buscaes. Quem lê deixa de viver. Fazei agora porque o façaes. Deixae de viver, e lêde. O que é a vida?

Mas aqui, mais intensamente que no caso da obra dramatica de um poeta, tendes que contar com o relevo real do author supposto. Não vos assiste o direito de acreditar na minha explicação. Deveis suppor, logo ella lida, que menti; que ides ler obras de diversos poetas, ou de escriptores diversos, e que atravez d'ellas podeis colher emoções, ou ensinamentos, d'elles, em que eu, salvo como publicador, não estou nem collabóro. Quem vos diz que esta attitude não seja, no fim, a mais justamente conforme com a ignorada realidade das cousas?

Na minha obra pessoal cousas haverá que mostrem similhança com o que ha nestas obras. Não vos admireis. São legitimas influencias litterarias — ou minhas nelles, ou d'elles em mim. Não ha similhança ou coexistencia de personalidades.

Cada personalidade d'essas — reparae — é perfeitamente una comsigo propria, e, onde ha uma obra disposta chronologicamente, como em Caeiro e Alvaro de Campos, a evolução da pessoa moral e intellectual do author é perfeitamente definida.

Vêde como isto se dá em Caeiro. Da limpidez primitiva (que nunca, eu, logrei comprehender ou sentir) da impressão nativa, a evolução é directa, a dentro de "O G[uardador] de R[ebanhos]", para a aprofundação philosophica. O pequeno episodio — expressivo de qualquer realidade do author, que ignoro — de "O P[astor] Amoroso" intervem e differencia. Depois, com a vinda da doença, a perfeita lucilação imaginativa ou sensivel se apaga, e temos, nos poemas fragmentarios finaes do livro, em certo ponto ainda a continuação do aprofundamento, pela evolução do espirito do poeta, em outros ponctos uma turbação da obra, pela doença final, real como as minhas mãos, a que, com magua minha que chorei em lagrimas, o grande poeta succumbiu.

Finjo? Não finjo. Se quizesse fingir, para que escreveria isto? Estas cousas passaram-se, garanto; onde se passaram não sei, mas foi tanto quanto neste mundo qualquer cousa se passa, em casas reaes, cujas janellas abrem sobre paisagens realmente visiveis. Nunca lá estive — mas acaso sou eu quem escreve?

Na vossa vida practica, cheia de cousas impossiveis, e que nunca podiam ter acontecido; na vossa vida de sentimento, domestica ou propria, cheia de cousas de emoção que nunca se sentiram neste mundo, ha acaso realidades tão presentes como estas, que talvez julgaes indefinitivas? Ah, as sombras sois vós e as vossas sensações. A realidade, sendo verdadeira, é assim como m'a escreveram estes, e como estes, que a escreveram, foram.

Não me digaes que sou medium de espiritos extranhos á terra. Com a terra me quero, e com o seu ambito azul. O horizonte inclue quanto eu incluo; o resto são os maus sonhos que cada um tem a sós comsigo.